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Lula não sabia? Parece que o presidente é sempre o último a saber

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Há frases que, de tão repetidas, deixam de ser explicações e passam a parecer um estilo de governo. No caso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, uma delas é particularmente conhecida: “Eu não sabia.” Ou seja: Ele nunca sabe do que está acontecendo ao seu redor, quando lhe convém.

Na noite desta quinta-feira (15), durante a sabatina com a jornalista Renata Lo Prete, na TV Globo, Lula conseguiu acrescentar mais um capítulo à já extensa coleção de coisas que, segundo suas próprias declarações ao longo dos anos, aparentemente “escaparam de seu conhecimento”.

O assunto da vez foi o Bolsa Família.

Lula afirmou que não sabia que o benefício não havia sido reajustado durante seu atual mandato. Segundo o presidente, seria “inexplicável” que alguém dentro de seu governo tivesse pensado em não corrigir o benefício pela inflação. Disse ainda que tomou a decisão de “dar tudo que a gente não deu”.

Perfeito. Mas fica uma pergunta bastante simples: como pode o presidente da República não saber que um dos principais programas sociais de seu próprio governo não foi reajustado?

Estamos falando de uma padaria esquecendo de aumentar o preço do pão ou da principal autoridade do país não saber o que está acontecendo com uma política pública de grande alcance do seu próprio governo?

É justamente aí que entra a ironia.

O presidente que sempre descobre depois

Lula não sabia do triplex.

Não sabia do sítio de Atibaia.

Não sabia do mensalão.

Não sabia do petrolão.

Não sabia das irregularidades que posteriormente vieram à tona envolvendo o INSS.

E agora, também não sabia que o Bolsa Família não havia sido reajustado.

A lista começa a ficar tão grande que qualquer dia desses será necessário criar no Palácio do Planalto um novo cargo: “ministro encarregado de avisar o presidente sobre o que acontece no governo”.

Talvez seja uma função estratégica.

— Presidente, o senhor está sabendo que existe inflação?

— Agora estou.

— E que o Bolsa Família não foi reajustado?

— Também estou sabendo.

— E que existe uma investigação acontecendo?

— Quando terminar a reunião, alguém me conta.

Ironias à parte, a questão é muito séria.

Afinal, para que serve um presidente?

Não se espera que o presidente da República saiba cada detalhe administrativo de uma máquina gigantesca como o governo federal. É evidente que existem ministros, secretários, técnicos e milhares de servidores responsáveis pela execução das políticas públicas.

Mas existe uma diferença enorme entre não conhecer cada detalhe burocrático e não saber algo relevante relacionado a uma das principais políticas sociais do próprio governo.

Se Lula realmente não sabia, surge uma pergunta inevitável: quem estava governando essa parte do governo?

E se sabia, mas agora afirma que não sabia, a situação é ainda mais preocupante.

Em qualquer uma das hipóteses, o eleitor tem o direito de perguntar.

Porque governar não é apenas anunciar quando a notícia é boa. É também assumir responsabilidade quando alguma coisa dá errado.

“Eu não sabia” virou argumento político?

Existe ainda outro problema.

Quando um presidente diz que não sabia de determinado fato, ele pode até estar apresentando uma explicação circunstancial. O problema é quando o eleitor começa a perceber um padrão.

Ao longo da história política brasileira recente, a frase “eu não sabia” já apareceu em diferentes momentos associados ao entorno de Lula e do PT.

Mensalão, petrolão, denúncias envolvendo integrantes do governo e outras controvérsias produziram um debate recorrente sobre até onde vai a responsabilidade política de quem ocupa o comando do país.

Agora aparece novamente a mesma fórmula, desta vez envolvendo o Bolsa Família.

E aqui está a ironia: se Lula realmente não sabe o que acontece em seu próprio governo, por que o brasileiro deveria confiar a ele novamente o comando do Brasil?

Essa não é uma pergunta de esquerda ou de direita.

É uma pergunta de responsabilidade.

O eleitor não precisa ser tratado como criança

O brasileiro já está cansado de explicações que parecem considerar a memória do eleitor curta.

O eleitor pode até esquecer datas, nomes e números. Mas não esquece facilmente quando alguém tenta explicar problemas complexos com respostas simplistas.

E existe algo ainda mais importante: o cidadão paga a conta.

O dinheiro que financia programas sociais, ministérios, salários, benefícios e toda a estrutura do governo sai, direta ou indiretamente, dos impostos pagos pela população.

Por isso, quando alguma coisa não funciona, o cidadão tem o direito de perguntar quem é o responsável.

Não basta dizer: “eu não sabia”.

É preciso perguntar: quem deveria saber?

E, principalmente: por que o presidente não sabia?

A curiosa presidência do “não sei”

Imagine uma empresa na qual o presidente descubra, meses depois, que um dos principais benefícios oferecidos aos clientes não recebeu o reajuste previsto.

O presidente chama uma reunião e diz:

“Eu não sabia.”

O conselho de administração provavelmente faria algumas perguntas.

No mínimo, perguntaria quem estava administrando a empresa.

Na política, entretanto, parece que algumas regras são diferentes.

O presidente pode descobrir depois.

O ministro pode descobrir depois.

O governo pode descobrir depois.

E o cidadão?

Esse descobre tudo na hora em que a conta chega.

Lula quer continuar presidente. Então precisa saber

Lula está tentando convencer o eleitor de que merece mais um mandato.

E isso significa que não basta apresentar promessas, inaugurações, números positivos ou discursos emocionados.

É preciso apresentar também responsabilidade, transparência e capacidade de comando.

Se o presidente não sabia que o Bolsa Família não havia sido reajustado, o eleitor precisa saber por quê.

Se não sabia, alguém deveria ter informado.

Se ninguém informou, há um problema de gestão.

Se informou e ele esqueceu, há outro problema.

E se sabia, mas somente agora diz que não sabia, o problema é ainda maior.

Em qualquer cenário, a pergunta permanece.

E lá vem novamente o “eu não sabia”

O mais curioso de tudo é que a frase já não provoca apenas indignação.

Provoca também ironia.

Porque, seguindo essa lógica, talvez Lula seja o presidente mais informado do Brasil justamente depois que as coisas acontecem.

É quase um fenômeno administrativo:

primeiro acontece; depois o presidente fica sabendo; em seguida ele toma providências; e finalmente anuncia a solução como se tivesse descoberto o problema junto com o eleitor.

Conveniente, não?

Mas o eleitor não é idiota.

Pode discordar, pode apoiar, pode votar contra ou a favor. Mas tem memória, tem capacidade de comparação e, principalmente, tem o direito de desconfiar.

Afinal, se um homem pretende continuar sentado na cadeira de presidente da República, é razoável esperar que ele saiba o que acontece dentro do próprio governo.

Porque presidente que não sabe de nada pode até render boas piadas.

Mas para governar um país, o mínimo que se espera é que saiba o que está acontecendo.

E, sinceramente, depois de tantas versões do “eu não sabia”, fica difícil não perguntar:

Será que Lula realmente não sabe de nada ou o brasileiro é que deveria fingir que não sabe de nada?

 

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