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Quando o samba vira absolvição: a biografia editada de Lula na Sapucaí

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Há algo de fascinante quando o Carnaval resolve assumir, sem pudor, a missão que nem tribunais, nem livros de História ousaram cumprir: a de reescrever biografias. No desfile da Acadêmicos de Niterói, o público não assistiu apenas a um espetáculo de cores, alegorias e samba no pé. Viu-se ali um verdadeiro mutirão de apagamento seletivo da realidade, embalado por bateria afinada e verba pública.

O homenageado da noite, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, surgiu como um personagem quase mitológico: puro, imaculado, alheio a qualquer sombra. Um Lula que nunca frequentou manchetes policiais, nunca foi investigado, nunca teve nome associado a escândalos que dominaram o noticiário por anos. Um Lula de fantasia — e não apenas no sentido carnavalesco.

Não por acaso, as críticas vieram de quem conhece bem o outro lado dessa história. O senador Sergio Moro e o ex-procurador Deltan Dalagnol apontaram o óbvio: o enredo passou longe de episódios centrais da trajetória política do presidente, especialmente aqueles revelados pela Operação Lava Jato. Nada de mensalão, nada de petrolão, nada de triplex, nada de sítio de Atibaia, nada de prisão. Nem uma ala perdida, nem um carro alegórico tímido. O silêncio foi ensurdecedor.

Deltan foi direto: chamou o desfile de propaganda eleitoral disfarçada de samba-enredo, uma “revisão histórica” bancada por todos nós. E é difícil discordar. Afinal, quando se usa dinheiro público para contar apenas metade da história — convenientemente a metade que interessa — não se está fazendo cultura, mas marketing político em ritmo de carnaval.

Já Moro, com sua ironia nada sutil, lembrou que no desfile não apareceu nem o carro da Odebrecht, nem o do sítio de Atibaia. De fato, faltaram muitos elementos. Talvez porque polêmica não renda nota 10 dos jurados. Ou porque a narrativa precisava ser “family friendly”, adequada a um Lula versão conto de fadas, onde o lobo mau nunca existiu.

É claro que alguém sempre lembrará: “Mas as condenações foram anuladas”. Sim, foram. Pelo Supremo Tribunal Federal, por questões processuais, não por uma declaração solene de inocência histórica e moral. Anulação não é absolvição ética. Mas isso não cabe em samba, não rima com refrão e estraga a harmonia do desfile.

O problema não é homenagear Lula. O problema é fingir que ele não tem passado. É transformar o Carnaval em uma grande lavanderia simbólica, onde biografias entram manchadas e saem branquinhas, perfumadas e prontas para consumo eleitoral. O problema é chamar isso de arte, quando cheira muito mais a palanque.

No fim das contas, a Sapucaí mostrou que, no Brasil, a fantasia não se limita às alegorias. Ela também invade a política, a memória e a história. E quando o samba termina, fica a pergunta que ecoa mais alto que qualquer bateria: quem vai pagar a conta dessa folia de amnésia coletiva?

Jornalista (CRP/BA 0006663/BA), radialista (DRT 5072/BA) e youtuber. Como jornalista já atua há 10 anos e atualmente é diretor de jornalismo do Portal Veja Aqui Agora . Desde 1984, atua no rádio, começando sua trajetória na Rádio Fundação Ide e Ensinai, em São Gonçalo dos Campos, na Bahia. Também trabalhou na Radio Cultura AM, Carioca AM, Betel FM, Cidade FM. Foi diretor da Comunidade FM, todas em Feira de Santana e atualmente trabalha na Rádio Elos, onde apresenta o Programa Bom Dia Felicidade, de segunda a sexta-feira, das 10h ao meio dia, também na mesma cidade. Também dirigiu a Rádio Shekiná FM em Vinhedo São Paulo e trabalhou como apresentador na Jerusalém FM na capital paulista. Como youtuber, administra os canais “Veja Aqui Agora News”, com mais de 160 mil assinantes e “Edivaldo Santos News” com mais de 15 mil assinantes. Para contato: vejaaqui.agora@hotmail.com

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