A Polícia Federal (PF) identificou, em mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, referências a uma possível ordem de pagamento no valor de R$ 20 milhões relacionada a um resort no Paraná que teria participação societária do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF). O conteúdo faz parte de um relatório recentemente encaminhado à cúpula do Judiciário e ao Ministério Público.
De acordo com a PF, as conversas analisadas mencionam nominalmente Roberta Rangel, advogada e ex-esposa de Toffoli. As mensagens levantaram indícios de que ela poderia ter prestado serviços jurídicos ao Banco Master no período em que ainda era casada com o ministro.
O relatório aponta propostas para que a advogada atuasse em dois casos de interesse de Vorcaro. Um deles foi a Operação Fundo Fake, investigação que apurou fraudes em fundos de pensão municipais e na qual o ex-banqueiro figurou como investigado. Em 2019, chegou a ser decretada sua prisão, posteriormente revogada pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região, sem que a ordem fosse cumprida.
O segundo caso citado foi a Ação Direta de Constitucionalidade (ADC) 81, em tramitação no STF, que questionava restrições impostas pelo Ministério da Educação à criação de cursos de medicina. O interesse de Vorcaro estaria ligado à Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), adquirida por ele em 2022, cuja principal fonte de receita vinha justamente desses cursos.
A PF encaminhou o relatório ao presidente do STF, compartilhou o material com outros ministros e também o enviou ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, justificando a medida pela existência de possíveis indícios de irregularidades.
Após uma reunião entre dez ministros do Supremo, realizada na noite de 12 de dezembro, Toffoli decidiu deixar a relatoria do caso, que passou ao ministro André Mendonça. Com isso, foi encerrado o procedimento que avaliava eventual suspeição do ministro com base nas informações do relatório.
As apurações também identificaram trocas de mensagens e registros de ligações entre Vorcaro e Toffoli, além de diálogos com Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro. Nessas conversas, surgem referências ao Tayayá Resort e à ciência de que Toffoli teria participação no empreendimento. Em uma das mensagens, Vorcaro orienta Zettel a investir R$ 20 milhões no resort.
Embora a informação tenha sido divulgada inicialmente pela CNN Brasil, a PF esclareceu que ainda não confirmou se o valor mencionado foi efetivamente transferido ou se chegou a contas vinculadas ao ministro.
Posteriormente ao envio do relatório, Toffoli reconheceu publicamente que é sócio da empresa Maridt, que detinha participação em resorts da rede Tayayá, e afirmou ter recebido dividendos, sem detalhar valores. A empresa, administrada formalmente por irmãos do ministro, teve parte de sua participação vendida a um fundo ligado a Zettel.
Até o momento, Paulo Gonet ainda avalia quais providências poderão ser adotadas a partir do material encaminhado pela PF. Roberta Rangel e a defesa de Daniel Vorcaro não se manifestaram.
A Polícia Federal ressaltou que o relatório possui caráter descritivo, reunindo diálogos e informações de contexto obtidas em fontes abertas e perícias, sem configurar, por si só, uma investigação formal contra Dias Toffoli. O documento, segundo os investigadores, se limita a registrar menções encontradas e o cenário em que elas ocorreram.