Há momentos na vida em que a dor chega de uma maneira que não dá nem tempo de respirar. Uma notícia ruim chega, depois outra, depois mais outra. Quando a pessoa pensa que chegou ao limite, alguma coisa acontece e parece empurrá-la ainda mais para baixo.
Foi assim com Jó.
Quando leio os primeiros capítulos desse livro, uma das coisas que mais me impressionam é a velocidade com que tudo aconteceu. Jó não foi perdendo suas coisas aos poucos. Em um único dia, sua vida virou de cabeça para baixo.
Primeiro chegaram dizendo que os sabeus tinham atacado, matado os servos e levado os bois e as jumentas. O homem ainda estava falando quando chegou outro mensageiro dizendo que o fogo havia consumido as ovelhas e os servos. Antes que terminasse, chegou outro: os caldeus tinham levado os camelos.
Mas ainda faltava a notícia mais dolorosa.
Se perder os bens já era terrível, imagine ouvir que seus dez filhos estavam mortos.
Dez filhos.
Não consigo ler Jó 1:18-19 com indiferença. Aqueles filhos estavam reunidos na casa do irmão mais velho quando um grande vento atingiu a casa. Ela caiu, e todos morreram.
Em poucas horas, Jó perdeu aquilo que havia levado uma vida inteira para construir e, principalmente, perdeu pessoas que dinheiro algum poderia trazer de volta.
E a provação ainda não havia terminado.
Depois, Jó adoeceu. Seu corpo ficou coberto de feridas dolorosas, da planta dos pés ao alto da cabeça. A Bíblia apresenta uma cena difícil de imaginar: Jó sentado entre as cinzas, pegando um pedaço de barro quebrado para raspar as próprias feridas (Jó 2:7-8).
Era um homem sofrendo por todos os lados.
Doía o corpo. Doía a saudade dos filhos. Doía olhar ao redor e perceber que tudo havia mudado.
Foi nesse momento que três amigos souberam do que havia acontecido: Elifaz, Bildade e Zofar. Eles combinaram entre si que iriam visitar Jó para se condoer dele e consolá-lo.
Quando chegaram perto, quase não reconheceram o amigo. Eles choraram, rasgaram suas roupas, jogaram pó sobre a cabeça e depois se sentaram no chão ao lado de Jó.
Sete dias e sete noites.
Ninguém disse nada. A própria Bíblia explica o motivo: porque viam que a dor era muito grande (Jó 2:13).
Talvez aquele tenha sido o melhor momento dos amigos de Jó. Eles não tinham respostas, então simplesmente ficaram ao lado dele.
O problema começou quando eles resolveram explicar a dor
Depois daqueles sete dias, o silêncio terminou. E, pouco a pouco, aquilo que deveria ser consolo começou a se transformar em julgamento.
Os amigos começaram a raciocinar mais ou menos assim: “Jó, alguma coisa você fez. Ninguém passa por tudo isso sem motivo.”
Elifaz pergunta: “Quem, sendo inocente, jamais pereceu?” (Jó 4:7). Bildade chega ao ponto de falar sobre os filhos que Jó havia acabado de perder, relacionando o que aconteceu com eles aos seus pecados (Jó 8:4).
Imagine ouvir isso sendo um pai que acabou de sepultar dez filhos.
Zofar também endurece suas palavras e chega a afirmar que Deus estava castigando Jó menos do que sua culpa merecia (Jó 11:6).
Jó estava tentando sobreviver à sua dor, enquanto seus amigos estavam tentando encontrar uma culpa.
Eles olhavam para o sofrimento e pensavam: “Se está sofrendo assim, alguma coisa fez.” Mas eles não sabiam de nada.
Não tinham participado da conversa registrada nos primeiros capítulos. Não conheciam aquilo que havia acontecido no mundo espiritual. Não sabiam que o próprio Deus havia apresentado Jó como homem íntegro, reto, temente a Deus e que se desviava do mal.
Eles tinham opinião, mas não tinham conhecimento.
Há uma dor que nasce quando somos julgados por quem deveria nos abraçar
Jó já estava sofrendo. Ele não precisava que ninguém aumentasse aquela carga. Mas foi exatamente isso que aconteceu.
Em determinado momento, Jó olha para seus amigos e diz: “Até quando afligireis a minha alma e me quebrantareis com palavras?” (Jó 19:2).
Essa expressão sempre me chama atenção: “me quebrantareis com palavras”.
O corpo de Jó já estava cheio de feridas. Agora algumas palavras começavam a ferir por dentro.
Não estou dizendo que as palavras dos amigos doíam mais do que perder dez filhos. Seria impossível medir uma dor dessa maneira. O que o livro nos permite perceber é que os amigos acrescentaram uma nova dor a um homem que já estava profundamente ferido.
Era a dor de ser julgado quando mais precisava ser compreendido.
E talvez alguém que esteja lendo este texto conheça essa sensação. Você passou por alguma coisa difícil e, além de enfrentar o problema, ainda precisou enfrentar comentários. Você chorava, e alguém julgava. Você precisava de um abraço, e recebeu uma acusação. Você precisava ser ouvido, e alguém apareceu cheio de respostas.
Há palavras que chegam numa hora em que a pessoa simplesmente não tem mais forças para carregá-las.
Nem sempre precisamos saber o motivo
Precisamos aprender uma coisa com os amigos de Jó: nem toda dor precisa da nossa explicação.
Há situações em que não sabemos por que aconteceu. E tudo bem dizer: “Eu não sei.”
Nós, pastores, principalmente, precisamos tomar cuidado com isso. Nem sempre precisamos encontrar uma explicação espiritual para cada tragédia.
Nem toda enfermidade significa pecado. Nem toda dificuldade financeira significa infidelidade. Nem toda tragédia significa castigo. Nem toda porta fechada significa que Deus está punindo alguém.
Há coisas que simplesmente não sabemos.
Os amigos de Jó cometeram um erro grave: tentaram explicar aquilo que Deus não havia explicado a eles. E quando tentamos explicar o que não conhecemos, podemos acabar machucando justamente quem desejávamos ajudar.
Às vezes, o melhor sermão é sentar no chão
Voltemos àquela primeira cena. Sete dias. Sete noites. Jó sentado no chão. Seus amigos sentados perto dele. Sem discurso. Sem acusação. Sem tentar descobrir culpados. Apenas presentes.
Talvez seja essa a imagem que precisamos guardar.
Há momentos em que o nosso irmão não precisa ouvir uma pregação. Ele precisa saber que não está sozinho.
Há momentos em que não precisamos dizer: “Eu sei o que você está sentindo.” Porque, muitas vezes, não sabemos.
Podemos simplesmente dizer: “Eu estou aqui.”
Isso já significa muito.
Quem está atravessando o vale nem sempre precisa de alguém explicando por que entrou nele. Às vezes, precisa apenas de alguém disposto a caminhar alguns passos ao seu lado.
Jó já tinha perdido seus bens. Jó já tinha perdido seus filhos. Jó estava com o corpo coberto de feridas. Ele não precisava perder também o direito de ser compreendido.
Por isso, antes de julgar alguém pelo sofrimento que está enfrentando, lembre-se dos amigos de Jó.
Antes de perguntar: “O que você fez para chegar nessa situação?”, experimente perguntar: “O que eu posso fazer para ajudar você a atravessar isso?”
Talvez você não tenha uma resposta para a dor daquela pessoa. Talvez você não consiga resolver o problema. Talvez não exista nenhuma palavra capaz de mudar aquela situação.
Mas você pode ficar. Pode ouvir. Pode abraçar. Pode chorar junto. Pode orar.
E, algumas vezes, isso será muito mais cristão do que tentar explicar aquilo que somente Deus conhece.
Porque existem dores que não estão pedindo explicações. Estão pedindo companhia.