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Política Nacional

Por que, mesmo diante de tantos escândalos, Lula ainda conserva milhões de votos?

Pr. Luciano Gomes

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A pergunta que ficou no debate da Band

O debate presidencial realizado pela Band no domingo, 23 de agosto, deixou uma pergunta que merece ser examinada com mais calma.

Luiz Inácio Lula da Silva não estava presente. Também não participaram Flávio Bolsonaro e Romeu Zema. No palco estavam Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury.

Em determinado momento, Renan Santos dirigiu uma pergunta a Cury que acabou levando o debate para um terreno muito mais profundo do que a simples disputa entre candidatos: por que, depois de tudo o que aconteceu nos últimos anos, milhões de brasileiros continuam votando em Lula?

A pergunta foi registrada pela imprensa. A Band informou que Renan, ao questionar Augusto Cury, criticou Lula e seus eleitores. A Rádio Itatiaia registrou que Renan questionou Cury sobre os possíveis motivos que levam as pessoas a seguirem votando em Lula.

Era uma pergunta especialmente interessante para Augusto Cury. Além de candidato, ele construiu sua carreira escrevendo sobre comportamento, emoções e funcionamento da mente humana. Naquele momento, a discussão deixou de ser apenas política. Passou a ser também moral, social e psicológica.

A pergunta incômoda

Renan Santos foi duro. Ao desenvolver seu raciocínio, fez uma distinção entre o eleitor beneficiário do Bolsa Família e os demais apoiadores de Lula. A Band registrou sua declaração de que, retirando aquele eleitor que depende do programa social, parte dos que continuam apoiando Lula estaria fazendo uma escolha moralmente condenável. Augusto Cury, por sua vez, reagiu ao tom utilizado por Renan e criticou sua agressividade, embora tenha reconhecido que algumas de suas ideias poderiam ter fundamento.

Pode-se discordar – e muito – das palavras escolhidas por Renan para qualificar milhões de brasileiros. Mas existe uma pergunta legítima por trás da provocação: o que faz um eleitor conhecer o histórico político dos últimos vinte anos e, ainda assim, continuar entregando seu voto a Lula?

Não se trata de chamar o eleitor de ignorante. Muito menos de afirmar que todo eleitor petista é desonesto. A questão é outra: qual é o peso da ética, da integridade e do histórico de um candidato na decisão do voto?

O passado existe e não pode ser apagado

Para enfrentar essa pergunta com seriedade, precisamos começar pelos fatos.

O Mensalão foi um dos maiores escândalos políticos do primeiro governo Lula. O caso chegou ao Supremo Tribunal Federal na Ação Penal 470 e terminou com a condenação de importantes dirigentes políticos. Também é necessário registrar algo que muitas vezes desaparece no debate partidário: Lula não foi réu nem condenado no processo do Mensalão.

Anos depois, porém, sua situação jurídica seria completamente diferente. A Operação Lava Jato revelou um amplo esquema de corrupção envolvendo a Petrobras, empreiteiras, operadores financeiros, funcionários da estatal e políticos de diferentes partidos. Lula passou a ser pessoalmente investigado e denunciado em ações criminais.

No processo do tríplex do Guarujá, foi condenado em primeira instância por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A condenação não ficou apenas nas mãos do então juiz Sergio Moro. O Tribunal Regional Federal da 4ª Região confirmou a condenação por unanimidade e aumentou a pena. Posteriormente, o Superior Tribunal de Justiça também manteve a caracterização dos crimes, embora tenha reduzido a pena.

Lula acabou preso em abril de 2018 e permaneceu na Polícia Federal em Curitiba até novembro de 2019. No processo envolvendo o sítio de Atibaia, veio outra condenação, posteriormente confirmada pelo TRF-4. Tudo isso aconteceu. Faz parte da história política brasileira e não deveria ser apagado por conveniência eleitoral.

Mas as condenações foram anuladas

Em 2021, o Supremo Tribunal Federal decidiu que a 13ª Vara Federal de Curitiba não possuía competência para julgar aquelas ações contra Lula. As condenações foram anuladas. Em outra decisão importante, o STF reconheceu a suspeição de Sergio Moro na condução do processo do tríplex.

Portanto, juridicamente, Lula não pode ser apresentado hoje como alguém que permanece condenado naqueles processos. Mas anulação processual e absolvição de mérito não são exatamente a mesma coisa.

O STF não realizou naquele julgamento uma análise final das provas para concluir simplesmente que Lula não praticou aqueles fatos. A discussão sobre a competência da Vara de Curitiba atingiu a validade jurídica das decisões anteriormente proferidas.

Isso produz uma situação que precisa ser tratada sem paixão. De um lado, não se pode utilizar uma condenação anulada como se continuasse juridicamente válida. Do outro, ninguém precisa fingir que investigações, denúncias, processos, julgamentos, condenações posteriormente anuladas e a própria prisão jamais aconteceram. A história continua sendo história.

E o eleitor diante disso?

É exatamente aí que a pergunta de Renan Santos ganha importância.

O eleitor não é um tribunal. Ele não precisa estabelecer culpa criminal além de qualquer dúvida razoável. O eleitor faz um julgamento diferente: decide em quem confiar.

Quando escolhemos um presidente, entregamos a uma pessoa poder sobre ministérios, orçamento, empresas estatais, nomeações, relações internacionais e decisões que afetam mais de 200 milhões de brasileiros.

Por isso, um cidadão pode perfeitamente concluir: “Mesmo reconhecendo que aquelas condenações foram anuladas, esse histórico produziu em mim uma dúvida moral suficiente para que eu não entregue novamente meu voto a esse político.”

Isso não é sentença judicial. É consciência eleitoral.

Então por que Lula continua recebendo milhões de votos?

Aqui talvez esteja a parte mais interessante da discussão. As pessoas não escolhem presidentes utilizando apenas um critério.

Para determinado eleitor, corrupção pode ser uma linha vermelha. Para outro, emprego pesa mais. Para outro, salário. Para outro, Bolsa Família. Para outro, segurança pública. Para outro, ideologia. E há quem vote simplesmente para impedir que o candidato adversário chegue ao poder.

A política brasileira tornou-se tão polarizada que milhões de pessoas já não votam necessariamente a favor de alguém. Votam contra alguém.

Um eleitor pode reconhecer problemas em Lula e votar nele porque rejeita Bolsonaro. Da mesma maneira, outro pode reconhecer problemas no bolsonarismo e ainda votar em seu candidato porque considera o PT um mal maior.

Essa é uma das consequências mais perigosas da polarização: o erro do nosso candidato começa a parecer menor simplesmente porque acreditamos que o outro lado seria pior.

Onde entra o assistencialismo?

A discussão levantada por Augusto Cury também toca numa realidade que não deveria ser ignorada.

Programas sociais são necessários. Num país profundamente desigual, o Estado não pode simplesmente abandonar uma família que não possui recursos para colocar comida na mesa. Combater a pobreza é obrigação de qualquer governo responsável.

O problema é outro. Uma política social deveria funcionar como ponte, não como destino permanente. A pessoa precisa de proteção enquanto atravessa uma situação de vulnerabilidade, mas também precisa encontrar educação, qualificação profissional, emprego, empreendedorismo e condições de conquistar autonomia.

Quando gerações inteiras permanecem dependentes do Estado, surge uma questão política inevitável: essa dependência pode produzir fidelidade eleitoral? Pode. Mas seria injusto concluir que todo beneficiário de programa social vota no PT ou que todo eleitor nordestino escolhe Lula porque recebe benefício. O comportamento eleitoral é muito mais complexo.

Existe algo além do benefício material

Lula construiu uma ligação emocional extremamente forte com uma parcela da população. Sua própria história contribuiu para isso.

O menino pobre nordestino, migrante, operário, líder sindical, candidato derrotado três vezes e finalmente presidente da República tornou-se um símbolo para milhões de pessoas.

Para parte desse eleitorado, Lula não representa apenas um partido. Representa uma época em que essas pessoas acreditam ter melhorado de vida.

E memória também vota. Gratidão vota. Identificação social vota. Medo vota. Esperança vota. Raiva também vota.

É justamente por isso que conhecer fatos negativos sobre determinado político não significa necessariamente deixar de votar nele.

Quando o político se torna parte da identidade

Há ainda outro fenômeno. Quando alguém passa vinte anos defendendo determinado político, discutindo por ele, votando nele e identificando-se com sua história, reconhecer posteriormente que talvez tenha depositado confiança na pessoa errada pode ser psicologicamente difícil.

É mais confortável reinterpretar os acontecimentos: foi perseguição; foi armação; todo político faz isso; o outro lado é pior; a Justiça anulou tudo. Essas justificativas ajudam o eleitor a preservar uma escolha que já faz parte de sua identidade.

E precisamos reconhecer algo importante: isso não acontece somente com Lula. Acontece também na direita. Acontece com Bolsonaro. Acontece com líderes religiosos. Acontece no futebol. Acontece em qualquer ambiente em que nossa identidade pessoal começa a se confundir com a figura de um líder.

Princípios não podem mudar conforme o político

Talvez seja esse o ponto mais importante dessa discussão.

Nenhum político deveria estar acima dos nossos princípios. Nem Lula. Nem Bolsonaro. Nem qualquer candidato que venha depois deles.

Se consideramos corrupção moralmente inaceitável quando envolve nosso adversário, precisamos ter coragem de manter o mesmo padrão quando a suspeita recai sobre alguém do nosso grupo. Se mentira é errada na esquerda, continua errada na direita. Se abuso de poder é errado na direita, continua errado na esquerda.

Caso contrário, não estamos defendendo princípios. Estamos defendendo pessoas. E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.

A pergunta de Renan permanece

Pode-se discordar do tom utilizado por Renan Santos no debate da Band. Pode-se considerar algumas de suas palavras excessivamente agressivas. Augusto Cury, inclusive, fez essa crítica diante dele.

Mas retirar o excesso verbal não elimina a pergunta. Ela continua diante de nós: por que milhões de brasileiros, conhecendo toda essa história, continuam escolhendo Lula?

Existem explicações econômicas. Existem razões sociais. Existe identificação ideológica. Existe memória afetiva. Existem programas sociais. Existe rejeição aos adversários. Existe polarização. Existe também uma dimensão psicológica.

Mas talvez a pergunta que cada brasileiro devesse fazer antes de entrar numa cabine eleitoral seja ainda mais simples: quais são os princípios dos quais eu não abro mão para escolher alguém que exercerá poder sobre o meu país?

Porque podemos discordar sobre economia. Podemos discordar sobre esquerda e direita. Podemos discutir tamanho do Estado, impostos, segurança pública, programas sociais e políticas culturais. Isso faz parte da democracia.

O que não deveríamos fazer é escolher primeiro nosso político preferido e depois adaptar nossos princípios para justificar tudo aquilo que ele faz. O caminho deveria ser exatamente o contrário.

Primeiro estabelecemos nossos princípios. Depois escolhemos quem consideramos digno de representá-los.

Talvez essa seja a discussão mais importante deixada pelo debate da Band.

 

Pastor Luciano Gomes
Bacharel em Teologia e escritor cristão

O Pastor Luciano Gomes é um destacado líder religioso e estudioso da Bíblia, formado em Teologia pelo Seminário Teológico Evangélico Betel Brasileiro, em Cruz das Almas/BA. Ele é o criador do Grupo Crescimento Espiritual no Facebook e do blog "Crescimento Espiritual" (https://lgcrescimentoespiritual.blogspot.com), onde compartilha seus conhecimentos e reflexões sobre estudos bíblicos, mensagens e temas relevantes para a vida cristã contemporânea. Com uma abordagem interdisciplinar, o Pastor Luciano Gomes aborda temas como família, fé, ética, missões, evangelismo, discipulado, liderança, igreja e sociedade, oferecendo uma perspectiva profunda e inspiradora para os cristãos do século XXI.

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