Uma análise realizada pela Polícia Federal revelou registros de mensagens produzidas pelo banqueiro Daniel Vorcaro e direcionadas ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no mesmo dia em que ele foi detido. As informações foram divulgadas pela jornalista Malu Gaspar em coluna publicada nesta sexta-feira (6) no jornal O Globo.
A investigação que envolve o dono do Banco Master ganhou novos contornos após a descoberta de registros de mensagens armazenadas no celular de Daniel Vorcaro. Os conteúdos indicam que o empresário teria tentado se comunicar com o ministro Alexandre de Moraes ao longo do dia 17 de novembro de 2025, data em que acabou sendo abordado pela Polícia Federal no Aeroporto Internacional de Guarulhos.
Os arquivos obtidos pela reportagem incluem capturas de tela de textos supostamente enviados por Vorcaro entre 7h19 e 20h48 daquele dia.
De acordo com os registros analisados, as mensagens não eram trocadas diretamente por texto convencional no WhatsApp. O procedimento adotado consistia em escrever o conteúdo no bloco de notas do celular, fazer uma captura de tela e enviar a imagem pelo aplicativo utilizando o recurso de visualização única.
Esse método teria impedido que eventuais respostas do ministro permanecessem salvas no aparelho do banqueiro. No entanto, as mensagens redigidas por Vorcaro continuaram armazenadas no dispositivo e foram recuperadas durante a perícia da Polícia Federal.
Os horários registrados nas notas coincidem com os momentos de envio das mensagens. Na maior parte dos casos, a diferença entre o salvamento da nota e o envio foi de aproximadamente um minuto, com exceção de um caso em que houve intervalo de seis minutos.
Nos textos, Vorcaro tratava de negociações envolvendo a venda do Banco Master ao grupo Fictor. Em uma das mensagens enviadas pela manhã, ele mencionava a possibilidade de anunciar parte da transação ainda naquele mesmo dia e citava negociações com investidores estrangeiros.
O banqueiro também relatou preocupação com possíveis vazamentos de informações e mencionou questionamentos feitos por uma jornalista. Em determinado trecho, afirmou que uma eventual divulgação poderia prejudicar a situação, mas também servir como argumento para entrar em discussões sobre um processo em andamento.
Segundo a Polícia Federal, naquele momento Vorcaro demonstrava apreensão com o avanço de um inquérito que poderia resultar em sua prisão.
Cerca de três horas após uma das mensagens, às 11h08, o site O Bastidor publicou reportagem mencionando um inquérito que tramitava na 10ª Vara Federal de Brasília. O conteúdo citava uma investigação sobre uma fraude bilionária relacionada à negociação envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master.
A PF sustenta que Vorcaro teria obtido detalhes da investigação por meio de acesso ilegal a sistemas da própria corporação e, posteriormente, usado o site para divulgar o material.
Depois da publicação, a defesa do banqueiro apresentou uma petição ao juiz Ricardo Leite, responsável pelo processo, pedindo que eventuais medidas cautelares fossem evitadas. Entretanto, a ordem de prisão já havia sido assinada às 15h29. A solicitação da defesa chegou ao tribunal às 15h47.
Mais tarde, no período da tarde, Vorcaro voltou a registrar novas mensagens relatando esforços para preservar parte da negociação de venda do banco. Em um dos textos, afirmou que estava tentando “salvar” parte da operação e informou que pretendia anunciar uma parcela da transação.
Em outra mensagem, questionou se havia alguma novidade ou possibilidade de bloqueio de medidas relacionadas ao caso.
Já à noite, o banqueiro voltou a mencionar o anúncio da negociação com o grupo Fictor e explicou que a divulgação ocorreu antes do planejado. Também relatou que no dia seguinte haveria movimentações envolvendo o empresário André Esteves, controlador do BTG Pactual, além de mencionar viagem para firmar acordos com investidores estrangeiros.
Segundo a perícia da Polícia Federal, uma das respostas atribuídas ao ministro foi registrada apenas como um emoji de polegar para cima.
Contrato com advogada e suspeitas investigadas
Até o momento, não vieram a público mensagens entre Vorcaro e a advogada Viviane Barci, contratada pelo Banco Master por R$ 129 milhões. Ela é esposa do ministro Alexandre de Moraes.
O valor do contrato chamou atenção por ser considerado incomum no meio jurídico brasileiro, principalmente porque até agora foram identificados apenas dois casos de atuação profissional de Viviane representando Vorcaro ou o Banco Master.
Há suspeitas de que os pagamentos poderiam estar ligados a atividades de lobby envolvendo o banco e o ministro. Reportagens da imprensa também mencionaram encontros entre os envolvidos e contatos de Moraes com Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, em favor da instituição financeira.
Procurado pela coluna de Malu Gaspar, Alexandre de Moraes afirmou que não recebeu as mensagens mencionadas e classificou a informação como uma “ilação mentirosa” destinada a atacar o Supremo Tribunal Federal. Já a defesa de Vorcaro informou que não comentaria o assunto.
Prisão e decisões judiciais
Daniel Vorcaro foi abordado pela Polícia Federal no Aeroporto Internacional de Guarulhos por volta das 22h daquele mesmo dia.
O banqueiro permaneceu preso por 11 dias, até que a desembargadora Solange Salgado, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, determinou sua libertação com medidas cautelares. Entre elas estavam o uso de tornozeleira eletrônica e a retenção do passaporte.
Posteriormente, na quarta-feira (4), o ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal, decidiu pela nova prisão do empresário.
As mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro passaram a integrar o conjunto de provas analisadas na investigação conduzida pela Polícia Federal. O conteúdo levanta questionamentos sobre tentativas de comunicação com autoridades e sobre a condução das negociações envolvendo o Banco Master no mesmo dia em que o banqueiro acabou sendo preso.
O caso segue em apuração e permanece sob análise do Judiciário.