A Comunidade Terapêutica Instituto Bambu, localizada na região da Varginha, Sítio do Aragão, zona rural de Santo Estêvão, abraçou nesta quarta-feira, 26 de agosto, a campanha Agosto Lilás e transformou sua programação em um espaço de diálogo, informação e conscientização sobre o enfrentamento à violência contra a mulher.
Com a mensagem “Silêncio não protege. Falar é o primeiro passo para romper o ciclo”, o encontro reuniu profissionais das áreas de segurança pública, saúde mental e educação, além de acolhidos da Comunidade Terapêutica, estudantes e convidados. A proposta foi discutir as diferentes formas de violência, os sinais de relacionamentos abusivos, a importância da prevenção e os caminhos disponíveis para quem precisa buscar ajuda.

Participaram da programação a Major PM Lilian Nascimento, comandante da 57ª Companhia Independente da Polícia Militar (57ª CIPM); a Dra. Adriana Caires, médica psiquiatra e sócia-diretora do Instituto Hera de Saúde; Inara Bastos, psicóloga e diretora técnica do Instituto Bambu; e Layane Sampaio, psicóloga da Escola Dom Pedro I. A delegada Alana Fialho, do Núcleo Especial de Atendimento à Mulher (NEAM), havia sido anunciada previamente, mas não compareceu ao evento.
Ambiente preparado para acolher e conscientizar
O Instituto Bambu preparou o ambiente especialmente para receber a programação do Agosto Lilás. A decoração em tons de lilás e roxo, com flores, laços da campanha e materiais informativos, ajudou a criar um espaço identificado com a causa e voltado ao acolhimento.

A programação contou com a presença de acolhidos da Comunidade Terapêutica, estudantes e convidados, que acompanharam atentamente as exposições e orientações das profissionais. A participação do público deu ao encontro um caráter comunitário, aproximando diferentes segmentos em torno de uma questão que exige responsabilidade coletiva.
A presença dos alunos da Escola Dom Pedro I teve significado especial. Ao inserir adolescentes e jovens nessa discussão, a iniciativa levou o debate para além da resposta à violência já instalada e destacou a educação como instrumento de prevenção, respeito e construção de relacionamentos mais saudáveis.

Violência contra a mulher não se resume à agressão física
Um dos pontos centrais do Agosto Lilás é ampliar a compreensão sobre o que caracteriza violência contra a mulher. A agressão física é uma de suas manifestações, mas está longe de ser a única.
A legislação brasileira também reconhece as violências psicológica, sexual, patrimonial e moral. Humilhações, ameaças, chantagens, controle excessivo, isolamento de familiares e amigos, retenção de dinheiro ou documentos, intimidação e comportamentos destinados a destruir a autoestima da vítima são sinais que precisam ser reconhecidos e enfrentados.
O avanço das tecnologias acrescentou outras possibilidades de controle, perseguição e exposição. Vigilância de celulares e redes sociais, divulgação indevida de conteúdos, ameaças por mensagens e práticas semelhantes no ambiente digital podem fazer parte de contextos abusivos.
Nesse cenário, informação também é proteção. Quanto mais cedo os sinais são identificados, maiores são as possibilidades de buscar orientação e acionar a rede de apoio antes que a violência se agrave.
Segurança pública, saúde mental e educação no mesmo diálogo
A diversidade das profissionais presentes permitiu abordar o enfrentamento à violência contra a mulher a partir de diferentes perspectivas.
A participação da Major PM Lilian Nascimento aproximou o público da atuação da segurança pública e reforçou a importância da proteção às vítimas e do acionamento dos mecanismos institucionais disponíveis.
A Dra. Adriana Caires trouxe ao encontro a dimensão da saúde mental. A violência pode deixar consequências que nem sempre são visíveis: medo, ansiedade, insegurança, isolamento, perda da autoestima e sofrimento emocional podem permanecer por muito tempo. Por isso, acolher uma vítima também significa compreender os impactos psicológicos produzidos pela violência.
Inara Bastos, psicóloga e diretora técnica do Instituto Bambu, representou a atuação da própria instituição no campo do acolhimento, do cuidado e da conscientização. Já Layane Sampaio, psicóloga da Escola Dom Pedro I, contribuiu para aproximar a temática do universo educacional e do público jovem.
Ao reunir segurança pública, saúde mental e educação, o evento reforçou uma ideia fundamental: o enfrentamento à violência contra a mulher não pode ficar restrito a uma única instituição. Ele depende de uma rede articulada, capaz de prevenir, identificar, orientar, acolher e proteger.
Instituto Bambu: acolhimento e reconstrução de vidas
A realização do Agosto Lilás dentro da Comunidade Terapêutica dialoga com a própria natureza do trabalho desenvolvido pelo Instituto Bambu.
Documentos oficiais do Governo da Bahia registram a atuação do INBA – Instituto Bambu no Programa Sistema Bahia Viva – Comunidades Terapêuticas, com ações voltadas ao acolhimento residencial transitório e à reinserção social de pessoas em situação de vulnerabilidade relacionada ao uso de substâncias psicoativas. Um dos planos de trabalho da parceria prevê 25 vagas gratuitas.
O Instituto também possui registro no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), no Povoado de Varginha, em Santo Estêvão. Em 2023, o Ministério da Saúde deferiu a concessão do Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social (CEBAS) ao INBA – Instituto Bambu, no âmbito de suas ações de promoção da saúde.
A trajetória institucional inclui ainda atividades socioeducativas, fortalecimento de vínculos familiares e sociais e ações relacionadas à prevenção e à reconstrução de projetos de vida. Nesse cenário, a adesão ao Agosto Lilás amplia uma atuação que já mantém contato cotidiano com questões de vulnerabilidade humana e social.
Romper o silêncio exige uma rede de proteção
A frase que marcou a programação — “Silêncio não protege” — sintetiza um dos maiores desafios do enfrentamento à violência. Para muitas mulheres, falar sobre aquilo que estão vivendo não é uma decisão simples.
Medo do agressor, ameaças, dependência financeira ou emocional, preocupação com os filhos, vergonha e receio de não serem acreditadas podem dificultar a busca por ajuda. Por isso, a responsabilidade não pode ser colocada apenas sobre a vítima.
É necessário que existam pessoas e instituições preparadas para ouvir, orientar e encaminhar. Polícia, sistema de Justiça, serviços de saúde, assistência social, profissionais de psicologia, educadores, familiares e comunidade compõem uma rede que precisa funcionar de maneira integrada.
A campanha Agosto Lilás contribui justamente para tornar essas informações mais conhecidas e para reafirmar que nenhuma forma de violência deve ser normalizada.
Uma mensagem que precisa permanecer depois de agosto
Mais do que realizar uma atividade alusiva ao calendário nacional de conscientização, o Instituto Bambu utilizou o encontro para colocar a prevenção e o enfrentamento à violência contra a mulher no centro de uma conversa que envolveu profissionais, jovens, acolhidos e comunidade.
As imagens do evento registram um público atento, a ambientação preparada para a campanha e a participação das profissionais convidadas. São registros de uma manhã em que o lilás não esteve presente apenas na decoração, mas simbolizou uma mensagem de respeito, proteção e responsabilidade social.
A presença dos estudantes reforçou ainda que a mudança cultural passa pela formação das novas gerações. É preciso ensinar que ciúme excessivo não é prova de amor, que controle não é cuidado e que nenhuma agressão deve ser naturalizada dentro de um relacionamento.
O mês de agosto termina, mas a causa permanece. O enfrentamento à violência contra a mulher exige compromisso durante todo o ano.
A iniciativa realizada na Comunidade Terapêutica Instituto Bambu deixa, portanto, uma mensagem que ultrapassa o evento: romper o ciclo da violência começa quando o silêncio encontra informação, acolhimento, proteção e coragem para pedir ajuda.