O governo federal acompanha com expectativa a decisão dos Estados Unidos sobre a possível adoção de novas tarifas sobre produtos brasileiros. A definição deve ocorrer nos próximos dias, após a conclusão da investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), que analisa supostas práticas comerciais consideradas prejudiciais aos interesses norte-americanos.
Mesmo com o diálogo ainda em andamento entre os dois países, integrantes da equipe do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avaliam que as chances de impedir a adoção das tarifas são reduzidas. O entendimento interno é de que a posição da administração norte-americana permanece distante das propostas apresentadas pelo Brasil.
Planalto analisa cenários para anúncio dos Estados Unidos
Na última sexta-feira, o presidente Lula reuniu-se com os ministros Mauro Vieira, das Relações Exteriores, e Márcio Elias Rosa, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Durante o encontro, foram discutidas as possíveis consequências da decisão aguardada para o dia 15 de julho.
A avaliação predominante no Palácio do Planalto é de que algum tipo de taxação deverá ser confirmado. Ainda existe incerteza, porém, sobre quais produtos brasileiros serão atingidos e qual será o percentual das tarifas.
A investigação aberta pelo USTR em junho sugeriu a aplicação de uma tarifa de 25% sobre importações brasileiras. O procedimento foi instaurado com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 e inclui questionamentos relacionados ao comércio digital, ao sistema Pix, ao desmatamento ilegal e às normas de proteção da propriedade intelectual.
Distância entre os dois governos dificulta entendimento
Segundo integrantes do governo brasileiro, os argumentos técnicos enviados durante as negociações dificilmente serão suficientes para modificar a posição dos Estados Unidos.
Essa percepção também foi reforçada pelo representante comercial norte-americano, Jamieson Greer, que afirmou recentemente existir uma grande diferença entre as posições defendidas pelos dois países. Apesar de novas conversas previstas antes da decisão final, a expectativa é de que o governo norte-americano anuncie em breve sua posição definitiva.
Brasil apresentou proposta para evitar novas tarifas
Na tentativa de evitar o aumento das barreiras comerciais, o governo brasileiro encaminhou aos Estados Unidos um conjunto de propostas voltadas às áreas questionadas durante a investigação.
O documento prevê o fortalecimento de mecanismos de controle em temas como comércio digital, tarifas preferenciais, combate à corrupção, proteção à propriedade intelectual, etanol e combate ao desmatamento ilegal. A estratégia busca demonstrar que essas questões não provocam prejuízos ao comércio norte-americano.
Além disso, o governo sinalizou disposição para adotar medidas complementares em diversas áreas investigadas. O Pix, entretanto, foi tratado como um tema fora das negociações e não integra a proposta apresentada aos norte-americanos.
Mesmo com essas iniciativas, os negociadores brasileiros consideram improvável uma mudança de postura por parte dos Estados Unidos.
Hipótese de adiamento também é considerada
Embora seja vista como pouco provável, o governo brasileiro também trabalha com a possibilidade de um adiamento da decisão sobre as tarifas.
Nos bastidores, essa hipótese estaria relacionada à atuação do senador Flávio Bolsonaro, que participou de uma audiência em Washington sobre o tema. Durante o encontro, o parlamentar argumentou que a aplicação imediata das tarifas poderia favorecer politicamente o presidente Lula e defendeu que a medida fosse adiada pelo menos até o período eleitoral.
A posição gerou reação do governo federal. Em nota divulgada pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência, a gestão Lula criticou a atuação do senador e afirmou haver diferença entre fazer oposição ao governo e agir contra os interesses do país.
Governo definirá reação após anúncio oficial
Independentemente do cenário escolhido pelos Estados Unidos, o Palácio do Planalto pretende manter as negociações até a divulgação da decisão oficial.
Somente após o anúncio da administração norte-americana o governo brasileiro deverá definir quais medidas serão adotadas como resposta às novas tarifas, caso elas sejam confirmadas.