O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, relatou às autoridades uma suposta negociação de pagamentos que somariam cerca de R$ 30 milhões para financiar um documentário sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no exterior. Segundo informações divulgadas pela revista Veja, os relatos também mencionam repasses ao Instituto Lula e possíveis contrapartidas para facilitar investimentos de fundos de previdência de empresas estatais em produtos financeiros da instituição.
As declarações fazem parte de uma nova tentativa de colaboração premiada apresentada por Vorcaro. As acusações citam integrantes do meio político e pessoas ligadas ao governo federal, mas ainda dependem de comprovação. Lula, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e Olavo Noleto negaram envolvimento nos supostos pagamentos.

Financiamento de filme e repasses ao Instituto Lula
De acordo com os relatos atribuídos a Vorcaro, a negociação teria sido articulada com a participação de João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do Partido dos Trabalhadores (PT), e de Augusto Lima, então sócio e presidente-executivo do Banco Master.

O ex-banqueiro afirma que o acordo previa aproximadamente R$ 30 milhões em dinheiro vivo para custear a produção de um documentário sobre Lula gravado no exterior. Além disso, teriam sido discutidos repasses ao Instituto Lula, administrado por Paulo Okamotto.
A produção mencionada seria o documentário Lula, dirigido pelo cineasta Oliver Stone, que reúne depoimentos de amigos e aliados do presidente. Segundo Vorcaro, Vaccari teria solicitado recursos para o filme e uma comissão de 10% sobre os valores que o banco conseguisse captar junto a fundos de previdência.
Entre as entidades mencionadas estão fundos ligados à Caixa Econômica Federal, ao Banco do Brasil, à Petrobras e aos Correios.
Vorcaro também teria afirmado que possuía mensagens, registros de saques e informações sobre os trajetos utilizados para transportar os valores. Esses elementos, segundo o relato, poderiam contribuir para a investigação das acusações.
Relatos mencionam integrantes do governo e intermediários
As declarações atribuídas ao ex-banqueiro também envolvem Alexandre Padilha, que, na época dos fatos relatados, ocupava o cargo de ministro-chefe da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República.
Segundo Vorcaro, intermediários teriam organizado contatos com Olavo Noleto, então secretário-executivo da pasta. As mensagens citadas pela Veja também apontariam a participação de Walfrido dos Mares Guia, ex-ministro e parceiro de negócios do banqueiro, na aproximação entre os envolvidos.

Vorcaro afirma ter se encontrado pessoalmente com Padilha, inclusive em jantares. Em um desses encontros, segundo sua versão, o ministro teria associado as tratativas conduzidas por Noleto a negociações realizadas em seu próprio nome.

O banqueiro também relata que, em conversas com intermediários, teria sido informado de que o acesso a fundos como Previ, Petros e Postalis dependeria de comissões equivalentes a 10% dos recursos captados.
As informações apresentadas, entretanto, representam alegações atribuídas a Vorcaro e não comprovam, por si só, a ocorrência de irregularidades ou a participação dos citados.
Banco Master entrou na lista de instituições autorizadas em abril de 2024
As mensagens reproduzidas na reportagem indicam que, em abril de 2024, Vorcaro acompanhava as negociações para ampliar a atuação do Banco Master junto aos fundos de previdência.
No dia 8 daquele mês, o banqueiro teria questionado um intermediário sobre os contatos com a Petros e o Postalis. A resposta indicava que as demandas já haviam sido encaminhadas e que havia esforços para avançar nas tratativas.
Em 29 de abril de 2024, o Master foi incluído na chamada lista exaustiva, documento que reúne instituições autorizadas a receber recursos dos fundos de previdência estatais. Após a inclusão, Augusto Lima comunicou a novidade a Vorcaro.
Na mesma data, segundo as mensagens citadas, um intermediário identificado como Júlio teria solicitado R$ 500 mil ao banqueiro. O relato aponta que o pagamento foi realizado e que Vorcaro cobrou resultados concretos nas operações de captação.
O andamento das negociações teria sido afetado em julho de 2024, após a divulgação de uma tentativa do Banco Master de vender R$ 500 milhões em letras financeiras à Caixa Econômica Federal. Conforme reportagem de O Globo publicada em 12 de julho daquele ano, dois gerentes da Caixa foram afastados após emitirem pareceres contrários à operação.
Vorcaro atribui a repercussão negativa à interrupção de decisões de investimento por parte de dirigentes de fundos de previdência e de integrantes do grupo mencionado em suas declarações. Ele afirma, porém, que continuou buscando recursos em fundos municipais e que essas operações teriam resultado em pagamentos de pelo menos R$ 6 milhões ao ministro e a pessoas ligadas a ele.
Esses valores e a finalidade dos supostos repasses não foram estabelecidos como fatos comprovados no material relatado.
Tentativa de reunião com Lula ocorreu em dezembro de 2024
As mensagens mencionadas pela revista também indicariam que, em outubro de 2024, houve uma tentativa de organizar um encontro entre Vorcaro e o presidente Lula.
A reunião ocorreu em 4 de dezembro daquele ano, no Palácio do Planalto, fora da agenda oficial. Segundo a reportagem, a articulação envolveu o advogado Walfrido Warde e Marco Aurélio Santana, conhecido como Marcola, que ocupava a chefia de gabinete da Presidência.
O assunto do encontro seria a situação do Banco Master perante o Banco Central.
Nos meses seguintes, Vorcaro teria demonstrado insatisfação com a falta de resultados nas negociações. Em junho de 2025, cobrou o intermediário responsável pelas tratativas e, em agosto, ameaçou encerrar o trabalho caso não houvesse avanços.
De acordo com os relatos, o banqueiro considerava que a equipe já havia dedicado tempo e recursos significativos às tentativas de viabilizar novos investimentos.
PGR não deu andamento às acusações por falta de provas suficientes
Segundo a Veja, Vorcaro apresentou suas declarações à Procuradoria-Geral da República (PGR) em junho de 2026, durante uma segunda tentativa de firmar um acordo de colaboração premiada. A proposta não avançou porque, conforme a reportagem, a Procuradoria considerou insuficientes as provas disponíveis para dar prosseguimento às acusações relacionadas aos supostos pagamentos em dinheiro vivo.
A defesa do ex-banqueiro sustentou que haveria outros materiais capazes de auxiliar na apuração, incluindo conversas de WhatsApp, registros de acesso ao Palácio do Planalto, e-mails, atas de reuniões, comprovantes de pagamentos e informações sobre voos.
Os relatos também mencionariam supostos pagamentos a outras autoridades, entre elas o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e integrantes do Judiciário.
A reportagem informa que Vorcaro trabalha em uma terceira tentativa de colaboração com as autoridades. Ele está preso desde março de 2026, em Brasília, no contexto das investigações sobre suspeitas de fraudes bilionárias relacionadas ao Banco Master.
Lula, Padilha e Noleto negam envolvimento
Procurado pela revista, Lula afirmou que nunca pediu ou recebeu vantagens financeiras de Vorcaro e que não autorizou terceiros a receber dinheiro em seu nome.
Alexandre Padilha e Olavo Noleto também negaram qualquer relação com o banqueiro. Os demais nomes citados na reportagem não haviam se manifestado até o fechamento do material.
As negativas fazem parte do contexto das acusações, que ainda precisam ser examinadas à luz das provas disponíveis.
Investigação depende da verificação dos documentos e relatos
As declarações atribuídas a Daniel Vorcaro levantam suspeitas sobre possíveis pagamentos, intermediações políticas e tentativas de obter investimentos de fundos de previdência públicos para o Banco Master.
No entanto, a existência das acusações não significa que os fatos tenham sido comprovados. A eventual análise das mensagens, dos registros financeiros e dos demais documentos mencionados poderá ajudar os investigadores a esclarecer se houve pagamentos, quem participou das negociações e se existiram contrapartidas irregulares.
Até que esses elementos sejam verificados pelas autoridades, os relatos devem ser tratados como alegações atribuídas ao ex-banqueiro, e não como conclusões definitivas sobre a responsabilidade dos envolvidos.
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