A condução do inquérito sobre o Banco Master no Supremo Tribunal Federal passou por mudanças relevantes após o ministro André Mendonça assumir a relatoria do processo. A principal alteração foi o fortalecimento da atuação técnica da Polícia Federal, com a redistribuição dos materiais apreendidos e a substituição de nomes anteriormente indicados pelo ministro Dias Toffoli.
As mudanças impactaram diretamente o andamento das perícias e o fluxo interno de informações na corporação.
Reorganização da perícia e saída de indicados
Com a nova relatoria, dois profissionais que atuavam no caso deixaram a investigação. O delegado Rafael Dantas, que colaborava na produção de informações para o gabinete do antigo relator, saiu automaticamente após Toffoli abrir mão da relatoria.
Já o perito Lorenzo Victor Schrepel Delmutti, formalmente designado para examinar o celular de Vorcaro, perdeu acesso aos autos após Mendonça autorizar que os cerca de cem dispositivos eletrônicos apreendidos nas duas fases da Operação Compliance Zero fossem redistribuídos entre técnicos indicados pela própria direção da PF.
Com a decisão, as senhas anteriormente concedidas foram canceladas, e novos acessos passaram a ser liberados apenas a peritos designados segundo critérios técnicos e administrativos da corporação.
Segundo informações divulgadas pela jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, a Polícia Federal havia informado que o volume de aparelhos exigiria aproximadamente 20 semanas de dedicação exclusiva de um único técnico para a conclusão das análises.
Decisões controversas na relatoria anterior
Durante sua atuação no caso, Toffoli determinou que todo o material apreendido fosse lacrado e mantido sob guarda do STF. Posteriormente, o conteúdo foi enviado à Procuradoria-Geral da República, e quatro peritos da PF foram escolhidos pessoalmente para realizar a análise.
Outra frente conduzida por indicação de Toffoli envolvia a apuração de um suposto vazamento das perguntas feitas no depoimento de Vorcaro, ocorrido em 30 de dezembro. A investigação não foi concluída antes da redistribuição do processo.
Rafael Dantas também esteve envolvido em episódio anterior sensível relacionado ao senador Sergio Moro, quando houve determinação de busca e apreensão na antiga 13ª Vara Federal de Curitiba, no contexto de alegações feitas pelo ex-deputado Tony Garcia sobre o caso Banestado — acusações negadas por Moro.
Restrição ao compartilhamento de informações
Apesar de ampliar a autonomia técnica da PF, Mendonça estabeleceu limites à circulação de dados internos. O ministro determinou que agentes e delegados não compartilhem informações sigilosas do inquérito com superiores hierárquicos ou outras autoridades públicas.
A medida buscou preservar o sigilo das investigações e organizar o fluxo institucional das informações.
Relatório da PF e críticas no STF
O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, encaminhou ao presidente do STF, Edson Fachin, um relatório de 200 páginas apontando possíveis conexões entre Vorcaro e Toffoli.
O documento mencionava o pagamento de R$ 35 milhões por participação no Tayayá Resort, empreendimento do qual Toffoli admitiu ser sócio. A entrega do relatório ocorreu antes de o ministro renunciar à relatoria, após reunião reservada com outros integrantes da Corte.
Segundo o portal Poder360, Mendonça teria criticado a iniciativa do diretor da PF de elaborar e encaminhar o relatório diretamente ao presidente do STF.
Embates entre Toffoli e Polícia Federal
A relação entre Toffoli e a PF foi marcada por divergências públicas. O ministro acusou a corporação de falta de empenho na segunda fase da operação. Investigadores, por sua vez, sustentaram que a deflagração dependia da confirmação de endereços corretos dos alvos.
Toffoli também determinou que os depoimentos de Vorcaro, do ex-presidente do Banco de Brasília Paulo Henrique Costa e do diretor de fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino Santos, fossem realizados no próprio STF. Inicialmente, chegou a convocar uma acareação antes mesmo da coleta formal dos depoimentos.
Posteriormente, o gabinete do ministro orientou que as oitivas ocorressem antes da acareação, ainda que não houvesse decisão formal estabelecendo essa ordem.
A redistribuição do caso Banco Master sob a relatoria de André Mendonça representa uma mudança de estratégia na condução do inquérito no STF. Ao priorizar critérios técnicos da Polícia Federal e alterar o fluxo de informações, o novo relator promoveu ajustes que impactaram diretamente a estrutura da investigação.
As decisões anteriores e os embates institucionais envolvendo o caso seguem repercutindo no meio jurídico e político, mantendo o processo sob forte atenção pública.