A decisão do procurador-geral da República, Paulo Gonet, de encaminhar à Procuradoria Regional Eleitoral de Sergipe o pedido de investigação contra o senador Alessandro Vieira (MDB-SE), apresentado pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), mudou o caminho jurídico do caso e abriu diferentes possibilidades para o futuro político do parlamentar.
Ao considerar que os fatos possuem possível relevância eleitoral, Gonet afastou, neste momento, a análise do episódio diretamente pelo STF. Por outro lado, o encaminhamento permite que a situação seja examinada no âmbito da Justiça Eleitoral, onde eventualmente poderá resultar em uma ação capaz de afetar a elegibilidade do senador.
Investigação tem origem em atuação de Vieira na CPI
A controvérsia começou após Alessandro Vieira propor, há três meses, o indiciamento dos ministros Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, além do próprio procurador-geral Paulo Gonet.
A iniciativa ocorreu durante os trabalhos da CPI do Crime Organizado, comissão criada para investigar atividades relacionadas ao tráfico, às milícias e ao contrabando.
No relatório elaborado pelo senador, foram levantados questionamentos relacionados às conexões pessoais e à atuação das autoridades no caso Banco Master.
Em relação a Gonet, Vieira criticou o que classificou como falta de iniciativa diante de questões envolvendo Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. Entre os pontos mencionados estava o fato de o procurador-geral não ter solicitado o afastamento de Toffoli da relatoria das investigações.
O senador também questionou a ausência de apuração sobre um contrato de R$ 129 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório da esposa de Alexandre de Moraes.
Relatório também questionou decisão envolvendo empresa ligada à família de Toffoli
Outro ponto abordado por Alessandro Vieira foi uma decisão de Gilmar Mendes relacionada à empresa Maridt, apontada como ligada à família de Dias Toffoli.
Segundo as informações apresentadas, Gilmar anulou, em fevereiro, uma determinação da CPI do Crime Organizado que previa a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático da empresa.
A medida ocorreu dentro de uma ação que, conforme relatado, havia sido arquivada pelo próprio ministro três anos antes.
O relatório apresentado por Vieira, entretanto, não foi aprovado pela comissão. O texto acabou rejeitado por 6 votos a 4.
Segundo o relato apresentado, houve uma articulação do Palácio do Planalto nos bastidores para substituir integrantes da CPI e impedir que o documento obtivesse os votos necessários para sua aprovação.
Gilmar Mendes pediu investigação contra o senador
Mesmo com a rejeição do relatório, a iniciativa de Alessandro Vieira provocou reação de Gilmar Mendes.
O ministro acionou a Procuradoria-Geral da República para que a conduta do senador fosse investigada.
Na avaliação apresentada por Gilmar, a tentativa de incluir ministros do Supremo entre os pedidos de indiciamento teria sido ilegal e representaria um desvio da finalidade dos trabalhos da comissão, além de atingir princípios democráticos.
Com a análise do caso, Paulo Gonet decidiu que a questão deveria seguir para a esfera eleitoral em Sergipe.
Dessa forma, caberá ao procurador regional eleitoral avaliar quais providências poderão ser adotadas.
Entre as possibilidades está o eventual ajuizamento de uma ação contra Alessandro Vieira que, dependendo de seu andamento e resultado, poderá ter consequências sobre sua elegibilidade.
Interlocutores citados no relato afirmam que Gonet não pretende exercer pressão sobre as autoridades responsáveis pela análise local do processo.
Gonet aponta possível interesse eleitoral na atuação de Vieira
No parecer, Paulo Gonet apresentou críticas à conduta adotada pelo senador durante a CPI e sustentou que a iniciativa de pedir o indiciamento dos ministros teria proporcionado grande exposição pública ao parlamentar.
Na interpretação do procurador-geral, Vieira teria utilizado sua posição institucional para obter visibilidade e possíveis benefícios eleitorais com uma medida de forte repercussão.
Gonet também argumentou que o pedido de indiciamento ganhou ampla divulgação na mídia e aumentou a notoriedade do senador diante de possíveis adversários na disputa eleitoral em Sergipe.
Para o procurador-geral, caso a candidatura de Vieira seja confirmada, essa circunstância pode conferir relevância eleitoral aos fatos e eventualmente fundamentar uma ação de investigação judicial eleitoral.
O parecer ainda observa que partidos políticos com legitimidade jurídica também poderão adotar medidas judiciais relacionadas ao episódio, independentemente de uma iniciativa anterior do Ministério Público Eleitoral.
Decisão afasta análise imediata do caso pelo STF
O envio do procedimento para a Procuradoria Regional Eleitoral de Sergipe também significa que a investigação não seguirá, neste momento, diretamente para julgamento no Supremo Tribunal Federal.
Alessandro Vieira possui prerrogativa de foro perante o STF por exercer mandato de senador.
Uma fonte mencionada no relato avaliou reservadamente que a transferência do caso para a esfera eleitoral evita que o parlamentar seja submetido diretamente à análise de ministros do Supremo envolvidos nas críticas feitas durante os trabalhos da CPI.
Ao mesmo tempo, porém, a mudança de competência mantém aberta a possibilidade de consequências eleitorais para o senador.
Vieira pretende disputar a reeleição em outubro e busca permanecer no Senado Federal por mais um mandato de oito anos.
Alessandro Vieira reage e fala em tentativa de intimidação
Após o encaminhamento do caso para a Procuradoria Regional Eleitoral, Alessandro Vieira se manifestou nas redes sociais.
O senador classificou a medida como uma nova tentativa de intimidação relacionada à sua atuação independente no Senado.
Vieira afirmou ainda que pretende contestar tecnicamente as acusações apresentadas por Gilmar Mendes e declarou confiar na autonomia e na capacidade institucional da Procuradoria Regional Eleitoral responsável pela análise.
Caso agora depende de decisão da Procuradoria Eleitoral
Com o posicionamento de Paulo Gonet, o futuro do procedimento passa a depender da avaliação das autoridades eleitorais em Sergipe.
O procurador regional eleitoral poderá analisar os elementos encaminhados e decidir se existem fundamentos para alguma medida judicial contra Alessandro Vieira.
Além disso, conforme destacado no próprio parecer do procurador-geral da República, partidos políticos legitimados também poderão buscar a Justiça Eleitoral.
Assim, uma disputa que começou dentro da CPI do Crime Organizado, envolvendo pedidos de indiciamento de integrantes do STF e do chefe da PGR, passa agora para uma nova etapa jurídica, justamente em um período no qual Alessandro Vieira se prepara para disputar a permanência no Senado.