O mercado de trabalho brasileiro apresentou, em julho de 2025, o desempenho mais fraco para o mês desde o auge da pandemia em 2020. Apesar da abertura de novas vagas formais, os números revelam sinais claros de perda de fôlego da economia, agravados pela combinação de juros elevados e pela condução das contas públicas pelo governo federal.
Queda na criação de vagas formais
Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), o país gerou 129.775 empregos com carteira assinada em julho. Embora positivo, o saldo representa uma queda de 32% em relação ao mesmo período de 2024, quando foram criadas 191.373 vagas. Trata-se do pior resultado para o mês nos últimos cinco anos, superado apenas pelo tombo de 2020, quando a pandemia reduziu drasticamente as contratações.
Pressão fiscal e impacto nos juros
Paralelamente, o Banco Central (BC) informou que o setor público consolidado fechou julho com déficit primário de R$ 66,6 bilhões, contra R$ 21,3 bilhões no mesmo mês do ano anterior. O aumento dos gastos e a criação de despesas permanentes sem contrapartida em receitas ampliam o desequilíbrio fiscal e dificultam a redução dos juros.
Esse cenário se reflete diretamente no crédito: a inadimplência no crédito livre subiu para 6,5%, maior nível desde 2013. Entre as empresas, os calotes chegaram ao ponto mais alto desde 2017, segundo relatório do BC divulgado em agosto.
Efeitos dos juros sobre empresas e famílias
De acordo com o economista Lucas Borges, especialista em private equity pela Harvard Business School, os impactos do ciclo de aperto monetário do BC aparecem de forma defasada:
“As empresas que antes conseguiam contratar e manter dívidas em dia agora enfrentam juros mais pesados, consumo retraído e maior cautela nos investimentos”, afirmou.
Borges ressalta ainda que a insistência do governo em ampliar gastos, sem promover reformas estruturais, como a administrativa, mantém pressão sobre a política monetária. Isso reduz a confiança fiscal e obriga investidores a exigir prêmios maiores para financiar a dívida pública, o que encarece ainda mais o crédito.
Perspectivas para os próximos meses
O enfraquecimento da atividade econômica já havia sido percebido em junho, quando a criação de empregos também ficou abaixo do registrado em 2024. Dois meses consecutivos de desaceleração sugerem que a fase de expansão começa a perder força.
Para Borges, o cenário é de crescimento moderado, com risco de desaceleração mais intensa caso a combinação de juros altos e incertezas fiscais se prolongue. O economista alerta ainda para o impacto social desse quadro:
“A inflação tende a ser contida a médio prazo, mas o custo é o desaquecimento do mercado de trabalho e o aumento da inadimplência, com famílias perdendo poder de compra. Para retomar um ciclo mais robusto, o país precisa equilibrar política fiscal e monetária, além de incentivar investimentos privados.”