A Conafer (Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais) segue ampliando sua base de filiados mesmo sob investigação da Polícia Federal (PF) por suspeita de fraude no INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). O presidente da entidade, Carlos Lopes, deverá prestar depoimento nesta segunda-feira (29) à CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) que acompanha o caso no Congresso Nacional.
Conafer e o volume de recursos
A organização ocupa a segunda posição entre as entidades com maior arrecadação via descontos em folha do INSS, somando R$ 484 milhões entre 2019 e 2024. Nesse ranking, perde apenas para a Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura), que acumulou R$ 2,1 bilhões no mesmo período.
Paralelamente à apuração policial, a Conafer mantém ativa sua estratégia de captação de filiados. Em agosto, promoveu um treinamento online para recrutar vendedores, oferecendo comissão de 10% sobre cada nova adesão. Com a mensalidade fixada em R$ 37, cada indicação gera R$ 3,70 de retorno para quem faz a captação. A medida foi intensificada após o bloqueio do INSS aos descontos automáticos nos benefícios previdenciários.
Público-alvo e benefícios oferecidos
Segundo materiais de divulgação, a entidade foca em pessoas de baixa renda e baixa consciência de mercado, incluindo agricultores familiares, ribeirinhos, quilombolas, povos originários, trabalhadores informais, idosos e famílias sem acesso a plano de saúde. Entre os benefícios anunciados estão auxílio de R$ 200 para compra de medicamentos e indenização de R$ 1.000 em caso de morte acidental.
Questionamentos sobre autenticidade
No site oficial, a Conafer divulga depoimentos de supostos associados. Um deles, atribuído a um indígena identificado como Julio Cesar Pataxó, aparece acompanhado de uma foto que circula em diferentes perfis de redes sociais, inclusive sob os nomes de Pedro Augusto Francisco Neto e Jorge Andrade. O mesmo ocorre com imagens vinculadas a outros personagens, como o agricultor Ricardo R. Ramos e a empreendedora Anne Roberta, cujas fotografias também aparecem em múltiplos perfis online.
Apesar dessas inconsistências, a entidade afirma possuir mais de 70 mil associados ativos. Em junho deste ano, chegou a anunciar em suas redes sociais um total de 597,2 mil filiados com vínculo válido.
Associação secundária e repasses
A AAB (Associação de Aposentados do Brasil), ligada à Conafer, também realiza descontos em benefícios previdenciários, embora não seja alvo da PF. Entre agosto de 2024 e abril de 2025, a entidade movimentou R$ 28 milhões, o que corresponde a cerca de R$ 3 milhões por mês.
Atuação política em Brasília
Antes das dificuldades financeiras geradas pela investigação, a Conafer mantinha forte presença no Congresso Nacional, patrocinando a Frente Parlamentar em Defesa do Empreendedorismo Rural. A confederação chegou a custear o aluguel de uma mansão no Lago Sul, em Brasília, utilizada como sede da frente, além de despesas de eventos, como cafés da manhã de lançamento.
Esse relacionamento político facilitou o acesso a emendas parlamentares destinadas ao Instituto Terra e Trabalho. Entre 2023 e 2024, foram empenhados R$ 14,5 milhões oriundos de seis parlamentares e duas bancadas. Deste montante, R$ 9,3 milhões já foram liberados.
A investigação da Polícia Federal coloca em xeque a credibilidade da Conafer, que segue ativa na busca por novos filiados e na defesa de sua imagem institucional. Enquanto o Congresso apura as denúncias, o futuro da entidade dependerá dos desdobramentos da CPMI e das ações judiciais em andamento.