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Lula, o Pix eleitoral, a picanha e a velha política do anúncio na hora que lhe interessa

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Há coisas que mudam com o tempo. A tecnologia evolui, o celular vira banco, o Pix substitui a fila da agência e até o discurso político ganha novas embalagens. Mas algumas práticas parecem ter descoberto o segredo da eternidade: continuam exatamente iguais.

Quando uma eleição se aproxima, surgem promessas que parecem ter saído de uma cartola política. É dívida que pode desaparecer, dinheiro que pode cair na conta, imposto que pode diminuir e benefício que pode aumentar. Tudo muito conveniente. Principalmente quando o calendário eleitoral começa a apertar.

Anos atrás, foi a picanha. Agora, a bola da vez é o MEI, o microempreendedor individual.

O governo Lula apresentou uma proposta envolvendo o perdão de dívidas de microempreendedores e também mencionou a possibilidade de um Pix de até R$ 5 mil para determinados empreendedores. A justificativa oficial pode ser apresentada com palavras bonitas: incentivo à produção, melhoria dos negócios, estímulo à atividade econômica.

Até aí, qualquer pessoa sensata deveria torcer para que o pequeno empreendedor brasileiro receba apoio.

O problema não é ajudar o MEI.

O problema é perguntar por que a ajuda aparece justamente agora. Algo que deveria sim, acontecer bem antes.

Quando o calendário eleitoral vira prioridade

É aqui que começa a parte interessante — e também a parte que merece desconfiança e muita desconfiança.

Se a proposta depende da aprovação do Congresso, não existe garantia de que será efetivamente colocada em prática no curto prazo. E, quando uma medida desse tamanho é anunciada perto de uma eleição, mesmo antes de sua aprovação definitiva, fica difícil impedir que o eleitor enxergue nela uma peça de campanha.

A política brasileira tem dessas coisas.

Primeiro se anuncia.

Depois se explica.

Se der certo, o governo comemora.

Se não der, a culpa é do Congresso, da oposição, da direita, da burocracia, da legislação ou, quem sabe, até da meteorologia. Menos, de quem realmente é.

O importante é que a promessa já circulou.

E promessa, em período eleitoral, tem uma característica curiosa: não precisa necessariamente chegar à conta bancária para chegar ao eleitor.

O fantasma da picanha voltou?

Quem acompanha política brasileira talvez se lembre da campanha de 2022, quando a promessa “picanha” ganhou enorme espaço no discurso eleitoral de Lula. O petista dizia que o pobre iria comer churrasco de picanha com cerveja, todo final de semana. O pior, é isto não aconteceu e ao contrário disso, ele ofereceu abóbora.

Naquele momento, o debate sobre poder de compra, comida na mesa e melhora de vida foi utilizado com enorme força política.

Agora aparece uma nova embalagem: Pix para o empreendedor, perdão de dívida e medidas econômicas anunciadas na reta final.

Mudou o produto, mas a lógica eleitoral parece familiar.

A picanha virou Pix.

O churrasco virou microempreendedor.

E o eleitor continua sendo convidado para a mesma mesa.

É claro que alguém poderá dizer: “Mas ajudar o pequeno empresário não é errado”.

Concordo.

Aliás, seria absurdo defender o contrário.

O Brasil precisa de um ambiente no qual o pequeno empreendedor consiga trabalhar, produzir, contratar, pagar impostos e crescer. O que não podemos fazer é transformar políticas públicas em uma espécie de delivery eleitoral, no qual o governo entrega a promessa justamente quando percebe que o eleitor está escolhendo o pedido.

E quem paga a conta?

Essa talvez seja a pergunta que menos aparece nas propagandas e mais deveria aparecer no debate.

Quando o governo promete perdoar dívidas, conceder benefícios ou colocar dinheiro público diretamente na economia, alguém precisa explicar de onde sairá o recurso.

Dinheiro público não nasce em árvore. Ou não existe pé de dinheiro.

Muito menos dentro de um aplicativo de banco.

O Estado arrecada do cidadão e das empresas. Portanto, quando anuncia uma nova despesa, é obrigação discutir a origem dos recursos, o impacto nas contas públicas e a sustentabilidade da medida.

Caso contrário, o governante pode fazer o papel do Papai Noel enquanto o pagador de impostos assume o papel de quem paga a ceia.

E existe uma diferença enorme entre política social responsável e promessa eleitoral financiada pelo pagador de impostos.

A primeira pode transformar vidas.

A segunda pode apenas transformar votos.

O pequeno empreendedor não precisa de favor

Existe ainda uma ironia maior nessa história.

O brasileiro que abre um pequeno negócio não está pedindo favor ao governo. Na maioria das vezes, está pedindo apenas que o governo pare de atrapalhar.

O empreendedor quer vender.

Quer produzir.

Quer contratar.

Quer pagar suas obrigações.

Quer ter segurança jurídica.

Quer crédito com condições razoáveis.

Quer menos burocracia.

Quer previsibilidade.

E, principalmente, quer saber quanto vai custar manter a porta aberta amanhã.

Um Pix de R$ 5 mil pode ajudar alguém em determinado momento? Pode.

Um programa de renegociação de dívidas pode ser importante? Evidentemente.

Mas isso não substitui uma política econômica consistente.

Porque ninguém administra uma empresa olhando apenas para o dinheiro que entra hoje. É preciso saber quanto será gasto amanhã.

O governo deveria pensar da mesma maneira.

A velha estratégia: anunciar antes de entregar

Existe uma velha regra da política: quem controla a narrativa muitas vezes chega primeiro à disputa eleitoral.

Se a proposta for aprovada, o governo poderá dizer que cumpriu.

Se não for, poderá dizer que tentou.

Nos dois cenários, a mensagem eleitoral já terá sido transmitida.

É uma estratégia politicamente inteligente.

Mas inteligência eleitoral não é necessariamente sinônimo de responsabilidade administrativa.

E é exatamente aí que o cidadão precisa prestar atenção.

O eleitor não deveria perguntar apenas: “Quanto vou receber?”

Deveria perguntar também: “Quanto isso vai custar para o país?”

Lula e a tentação de governar olhando para a urna

O maior risco de medidas anunciadas dessa maneira não está apenas no valor financeiro.

Está na mensagem.

Quando o governo começa a anunciar benefícios, cortes de impostos e programas de transferência de recursos justamente quando a eleição se aproxima, cria-se a impressão de que a política pública deixou de ser instrumento permanente de governo para se transformar em instrumento temporário de campanha.

E isso é perigoso.

Porque amanhã outro governante poderá fazer exatamente a mesma coisa.

Depois outro.

E outro.

Até chegarmos ao velho modelo em que o Estado distribui benefícios em ano eleitoral e apresenta a conta depois.

A diferença é que a conta nunca chega com um discurso de campanha.

Ela chega silenciosamente na forma de inflação, impostos, juros, dívida pública ou perda de poder de compra.

O eleitor não é bobo

É aqui que a classe política costuma cometer um erro de avaliação.

O brasileiro pode até gostar de uma ajuda financeira.

Quem não gostaria?

Mas isso não significa que o eleitor seja incapaz de perceber a coincidência entre anúncio e calendário.

O cidadão sabe quando está recebendo uma solução permanente e quando está diante de uma promessa conveniente.

Pode até aceitar o Pix.

Mas não necessariamente entrega o voto junto.

Essa é a grande diferença.

O dinheiro pode cair na conta. O voto não é transferência automática.

E talvez seja justamente isso que mais incomode aqueles que acreditam que basta anunciar um benefício para comprar gratidão política.

No fim das contas, fica a pergunta

O governo Lula realmente está preocupado em resolver estruturalmente os problemas dos microempreendedores brasileiros ou descobriu, mais uma vez, que o calendário eleitoral é um excelente momento para apresentar boas notícias?

Essa pergunta não é de esquerda nem de direita.

É uma pergunta de contribuinte.

E deveria ser feita independentemente de quem esteja sentado no Palácio do Planalto.

Porque democracia não deveria funcionar como supermercado eleitoral, onde o governante coloca benefícios na prateleira às vésperas da eleição e espera que o consumidor escolha a marca que oferece o maior desconto.

Governar é muito mais do que anunciar.

É planejar, executar, pagar a conta e deixar resultados que sobrevivam ao próximo ciclo eleitoral.

Se o governo realmente quer ajudar o pequeno empreendedor, ótimo.

Mas que ajude com políticas duradouras, responsabilidade fiscal e condições para que ele caminhe com as próprias pernas.

Porque empreendedor brasileiro não precisa de governo fazendo campanha de salvador.

Precisa de um governo que não transforme cada eleição em temporada de promessas.

E quanto ao Pix?

Bem…

Em Brasília, até o dinheiro que ainda não chegou pode fazer campanha.

Essa é a política brasileira: primeiro vem o anúncio; depois, se der tempo, aparece a realidade.

Primeiro vem o anuncio da picanha, depois entrega abóbora. Se reclamar, vem a exortação: “se a carne está cara, coma ovo, se está tudo caro, não compre”.

Jornalista (CRP/BA 0006663/BA), radialista (DRT 5072/BA) e youtuber. Como jornalista já atua há 10 anos e atualmente é diretor de jornalismo do Portal Veja Aqui Agora . Desde 1984, atua no rádio, começando sua trajetória na Rádio Fundação Ide e Ensinai, em São Gonçalo dos Campos, na Bahia. Também trabalhou na Radio Cultura AM, Carioca AM, Betel FM, Cidade FM. Foi diretor da Comunidade FM, todas em Feira de Santana e atualmente trabalha na Rádio Elos, onde apresenta o Programa Bom Dia Felicidade, de segunda a sexta-feira, das 10h ao meio dia, também na mesma cidade. Também dirigiu a Rádio Shekiná FM em Vinhedo São Paulo e trabalhou como apresentador na Jerusalém FM na capital paulista. Como youtuber, administra os canais “Veja Aqui Agora News”, com mais de 160 mil assinantes e “Edivaldo Santos News” com mais de 15 mil assinantes. Para contato: vejaaqui.agora@hotmail.com

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