Uma manifestação assinada por 27 superintendentes da Polícia Federal (PF) em defesa da autonomia da instituição revelou que, além do conflito com o Supremo Tribunal Federal (STF), existem divergências dentro da própria corporação sobre a forma de reagir às decisões judiciais envolvendo investigações de grande repercussão política.
A nota foi divulgada na quinta-feira (6), em meio ao agravamento da relação entre a PF e o ministro do STF André Mendonça, responsável por processos relacionados aos desvios de recursos de aposentadorias do INSS e às fraudes investigadas no Banco Master.
Divergências dentro da Polícia Federal
A ideia de divulgar uma manifestação surgiu entre integrantes próximos ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, na semana anterior à publicação. O assunto foi levado a uma reunião virtual realizada no sábado (1º), mas encontrou resistência desde o início.
Segundo informações obtidas com quatro pessoas que acompanharam as discussões, ao menos seis dos 27 superintendentes inicialmente se posicionaram contra a divulgação do documento e questionaram tanto sua oportunidade quanto o tom proposto.
A primeira versão era considerada mais dura. O texto previa uma declaração contrária a eventuais medidas que pudessem interferir nas investigações. Mesmo sem mencionar diretamente o Supremo, alguns participantes avaliaram que a formulação poderia ser interpretada como um confronto desnecessário com a Corte.
Depois de sucessivas alterações, chegou-se a uma redação mais moderada, capaz de obter a concordância de todos os signatários.
O documento defende que a PF precisa preservar a independência técnica de seus trabalhos e contar com autonomia administrativa para definir recursos e prioridades institucionais.
Por que a manifestação ocorreu agora?
Durante as discussões, integrantes contrários ao manifesto levantaram uma questão: por que a instituição deveria se posicionar neste momento, se não houve reação semelhante diante de decisões tomadas anteriormente no caso Banco Master?
Entre o fim de 2025 e o começo deste ano, Dias Toffoli, então responsável pelo processo, havia determinado medidas envolvendo materiais e documentos apreendidos pela PF. Entre elas estavam o lacre e armazenamento dos itens na sede do STF, além do encaminhamento das provas à Procuradoria-Geral da República e da indicação de peritos da Polícia Federal para analisá-las.
Outro episódio citado foi o relatório de aproximadamente 200 páginas elaborado pela PF e entregue ao então presidente do STF, Edson Fachin. O documento reunia suspeitas sobre uma possível relação de Toffoli com o Banco Master, incluindo um aporte de R$ 35 milhões na empresa pertencente à família do ministro e responsável pelo resort Tayayá, no Paraná.
Após a divulgação do conteúdo, Toffoli deixou a relatoria do caso. Segundo os relatos apresentados na reportagem, em discussões internas sobre o documento, integrantes do STF fizeram críticas contundentes ao material e houve articulações políticas pela saída de Andrei Rodrigues da direção da PF.
Apesar disso, os superintendentes não haviam divulgado manifestação pública naquela ocasião.
A avaliação que acabou prevalecendo entre os defensores da nota foi de que a relação entre o Supremo e a Polícia Federal havia chegado a um nível de tensão que exigia uma demonstração de unidade institucional.
Conflito com André Mendonça
A crise atual envolve principalmente decisões de André Mendonça nas investigações relacionadas aos desvios de recursos do INSS.
Rodrigues tem contestado medidas determinadas pelo ministro, entre elas o envio do material bruto da investigação ao magistrado e a restrição para que delegados envolvidos no caso compartilhem informações com seus superiores dentro da própria Polícia Federal.
A divergência ganhou publicidade no fim de julho, quando a PF encaminhou um ofício à Advocacia-Geral da União (AGU) questionando decisões de Mendonça e solicitando uma alternativa jurídica para contestá-las.
Outro ponto de tensão surgiu após o Ministério da Justiça determinar o retorno de mais de cem policiais que estavam cedidos para outros órgãos públicos. Nos bastidores, o gabinete de Mendonça teria alertado integrantes do governo de que, caso a medida alcançasse o STF, poderia ser interpretada como tentativa de obstrução da Justiça e resultar em uma nova investigação.
Suspeita de vazamento também amplia a crise
A relação entre o gabinete de Mendonça e a direção da PF também foi afetada por uma suspeita envolvendo o vazamento de informações de uma etapa da Operação Compliance Zero, ligada ao Banco Master.
O episódio envolveu o então líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA). Conforme o relato apresentado, Wagner solicitou uma audiência com Mendonça no mesmo dia em que a PF encaminhou ao ministro um pedido de autorização para realizar uma operação contra ele.
A coincidência dos acontecimentos alimentou suspeitas sobre possível vazamento de informações sigilosas da investigação.
Reunião no STF ocorre em meio ao impasse
No mesmo dia em que os superintendentes divulgaram a nota, o ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, e o advogado-geral da União, Jorge Messias, se reuniram com André Mendonça no Supremo para tratar da crise envolvendo a Polícia Federal.
A reunião acrescentou pressão a um cenário já marcado por desconfianças e acusações de interferência.
No centro da disputa estão investigações consideradas extremamente sensíveis no cenário político, especialmente os casos envolvendo os desvios no INSS e o Banco Master. Também são citadas suspeitas sobre eventual envolvimento de Fábio Luís da Silva, conhecido como Lulinha, e de Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, com integrantes da organização investigada.
Enquanto Mendonça manifesta preocupação com vazamentos de operações sigilosas e possíveis tentativas do governo Lula de interferir nas apurações, integrantes da PF interpretam algumas decisões do ministro como formas de intervenção ou direcionamento das investigações.
A nota dos 27 superintendentes não eliminou as divergências existentes dentro da Polícia Federal, mas representou uma tentativa de demonstrar unidade institucional diante do conflito com o Supremo.
O processo de construção do documento mostrou que havia diferentes avaliações sobre como a corporação deveria reagir às decisões judiciais. A versão final, mais moderada, buscou evitar um confronto direto com o STF e concentrar a mensagem na defesa da independência técnica e da autonomia administrativa da PF.
Com as investigações do INSS e do Banco Master no centro das atenções e diante das desconfianças entre a Polícia Federal, o STF e integrantes do governo, o impasse permanece sem solução. Segundo relatos de aliados envolvidos nas negociações, neste momento não há disposição significativa dos lados envolvidos para recuar.