Relatórios de Inteligência Financeira elaborados pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e enviados à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS registram um repasse de R$ 700 mil feito por uma empresa associada ao empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, ao escritório de advocacia da atual ministra do Superior Tribunal Militar (STM), Verônica Abdalla Sterman. A operação ocorreu antes da posse da magistrada no cargo.
De acordo com os documentos do Coaf, o pagamento partiu da empresa ACX ITC Serviços de Tecnologia S/A e foi realizado em parcela única. O período analisado no relatório abrange movimentações financeiras entre outubro de 2024 e fevereiro de 2025, o que indica que a transferência aconteceu antes da nomeação de Verônica Sterman para o STM, oficializada em setembro pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A conta utilizada para a operação estava registrada no Banco do Brasil, em São Caetano do Sul (SP), e movimentou mais de R$ 266 milhões ao longo de quatro meses. Não foram encontrados registros públicos de processos judiciais nos quais a ministra tenha atuado em favor da ACX ITC ou de empresas do mesmo grupo.
Antes de assumir o cargo no STM, Verônica Sterman construiu carreira como advogada e já representou figuras políticas de destaque, como a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, o ex-ministro Paulo Bernardo e o vice-presidente Geraldo Alckmin. Esses nomes apoiaram sua indicação tanto para o STM quanto, anteriormente, para uma vaga no Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3).
Em manifestação enviada à imprensa, a ministra afirmou que o valor recebido corresponde à elaboração de três pareceres jurídicos de natureza criminal relacionados às atividades da empresa. Segundo ela, os serviços foram prestados dentro de prazos definidos e encerraram a relação profissional, além de declarar desconhecer qualquer vínculo da ACX ITC com o empresário conhecido como “Careca do INSS”.
A ACX ITC também aparece em outro pagamento relevante: R$ 595 mil destinados ao escritório do ex-ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Nefi Cordeiro, após sua saída da Corte. Assim como no caso de Sterman, não há registro de atuação judicial do ex-ministro em favor da empresa. Ele informou que os valores se referem a honorários advocatícios.
Fundada em dezembro de 2021, a ACX ITC está registrada como empresa de tecnologia e investimentos financeiros, com sede em São Paulo e capital social declarado de R$ 101,2 milhões. Inicialmente, tinha como sócios Ericsson de Azevedo e Erika Nogueira Marques da Costa. Durante a pandemia, ambos receberam o Auxílio Emergencial, e Erika também foi beneficiária do Bolsa Família até 2021, mesmo constando como detentora de metade do capital social da empresa à época. Posteriormente, ela deixou a sociedade, permanecendo apenas Ericsson.
Segundo investigações da Polícia Federal, a ACX ITC teria sido utilizada como uma das estruturas empresariais para dificultar o rastreamento de recursos movimentados por Antônio Carlos Camilo Antunes. A empresa teve o sigilo fiscal quebrado pela CPMI do INSS após receber ao menos R$ 4,4 milhões da Arpar Participações e Empreendimentos, apontada como empresa de passagem usada para fragmentar fluxos financeiros e ocultar beneficiários finais.
Apesar do capital declarado, a presença digital da ACX ITC é limitada: um perfil no Instagram sem atualizações desde abril de 2023 e um site atualmente fora do ar. A empresa também acumula poucos processos judiciais. Um deles envolve uma advogada de Santa Catarina que afirma ter investido R$ 780 mil e, posteriormente, perdido acesso aos valores. Na ação, ela relaciona a ACX ITC ao chamado RCX Group, investigado pela CPI das Pirâmides Financeiras em 2023, que recomendou o indiciamento de pessoas ligadas ao grupo.
Os dados reunidos pelo Coaf e analisados pela CPMI do INSS revelam movimentações financeiras expressivas envolvendo a ACX ITC e escritórios de advocacia de figuras públicas de alto escalão, incluindo uma ministra do STM. Embora os pagamentos tenham ocorrido antes das respectivas nomeações ou após a saída de cargos judiciais, as conexões da empresa com esquemas investigados pela Polícia Federal ampliam o interesse das autoridades sobre a origem e o destino dos recursos, mantendo o caso no centro das apurações parlamentares e criminais.