Uma investigação conduzida pela Polícia Federal e que tramita sob sigilo no Supremo Tribunal Federal (STF) vem provocando forte tensão nos bastidores de Brasília. O alvo é um suposto esquema de venda de sentenças no Superior Tribunal de Justiça (STJ), tribunal responsável por julgar algumas das disputas mais caras e sensíveis do país. Embora as revelações tenham vindo a público há cerca de dois meses, o caso segue em pleno andamento e continua gerando novos desdobramentos.
Crime brutal deu início à apuração
A investigação teve início no fim de 2023, após o assassinato de um advogado no Mato Grosso, executado com dez tiros em frente ao próprio escritório. Ao analisar o celular da vítima, a polícia encontrou mensagens que chamaram atenção: contatos frequentes e considerados suspeitos com assessores ligados a quatro ministros do STJ.
A partir desse ponto, a PF passou a “puxar o fio” da história e se deparou com algo muito maior: uma estrutura organizada para intermediar decisões judiciais, envolvendo lobistas, assessores de gabinetes e empresários interessados em sentenças favoráveis.
Lobistas enviavam textos prontos de decisões
Segundo a apuração, os lobistas atuavam como negociadores, fazendo a ponte entre clientes e assessores de ministros. Em alguns casos, chegavam a enviar minutas prontas de decisões, que seriam adaptadas e usadas nos julgamentos. Para ocultar o esquema, o grupo utilizava mensagens cifradas, celulares registrados em nome de laranjas e cartões de crédito de terceiros para pagamento de propinas.
Um relatório sigiloso da Polícia Federal aponta que o esquema funcionava como uma organização criminosa dividida em três núcleos:
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assessores de ministros do STJ;
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intermediários responsáveis pela negociação das sentenças;
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clientes, em sua maioria empresários com interesses em causas bilionárias.
Caso está no STF e pode atingir novos gabinetes
Até o momento, nenhum ministro do STJ é formalmente investigado, mas o caso foi enviado ao STF por envolver pessoas com foro privilegiado. Recentemente, surgiram indícios de que assessores de mais quatro ministros podem estar envolvidos, ampliando o alcance da apuração.
A investigação já passou por várias fases, com dezenas de prisões realizadas. No relatório mais recente, o delegado responsável solicitou novo prazo, alegando a descoberta de pistas adicionais, como o empréstimo de avião a uma autoridade e a indicação de magistrado para cargo público, fatos que reforçam a suspeita de tráfico de influência.
Um caso longe do fim
Nos bastidores, cresce o questionamento: como um esquema dessa dimensão poderia operar por tanto tempo sem o conhecimento dos chefes dos gabinetes? Essa é uma das perguntas centrais que a investigação ainda tenta responder.
Entre investigadores e fontes do Judiciário, o sentimento é de que se trata de um daqueles casos em que cada nova revelação puxa outra, ampliando o escândalo. Não à toa, a apuração vem sendo descrita como um verdadeiro “vespeiro” — e já é apontada como uma das investigações mais sensíveis dos últimos anos envolvendo o Judiciário brasileiro.
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