O Brasil segue sendo palco de episódios jurídicos que, em vez de gerar confiança na Justiça, levantam cada vez mais dúvidas. O mais recente envolve uma figura central do governo Bolsonaro: o ex-ajudante de ordens Mauro Cid. Sua delação premiada — agora cercada por contradições, revisões e vazamentos — foi abraçada com força pelo Supremo Tribunal Federal (STF), especialmente pelo ministro Alexandre de Moraes. Mas diante dos fatos que vêm à tona, fica difícil não questionar: o STF casou com a pior delação da história?
A crítica não é simples especulação. Há um rastro robusto de acontecimentos que tornam a delação de Mauro Cid no mínimo controversa e, no máximo, juridicamente imprestável. E o mais preocupante: em vez de distanciamento crítico, o Supremo parece envolvido emocionalmente com a peça. Está cego pela paixão ou comprometido com um objetivo maior?
UMA DELAÇÃO QUE ESCORRE PELOS DEDOS
A lista de inconsistências é extensa e, a cada novo capítulo, mais vergonhosa. A começar pela origem: Mauro Cid firmou a delação quando estava preso por tempo excessivo e sem denúncia formal. Isso, por si só, já colocaria em xeque a “espontaneidade” da confissão. Some-se a isso o fato de ele ter mudado de versão diversas vezes — mais de nove, segundo apurações de imprensa — e de mensagens vazadas indicarem coação, inclusive com ameaças à sua família.
Ora, que tipo de valor pode ter uma delação construída sob medo, pressão e chantagem emocional? Onde estão os princípios do devido processo legal?
Mais grave ainda é o fato de que parte das acusações feitas por Cid sequer tem respaldo em provas. Por exemplo, o envolvimento de Felipe Martins com a chamada “minuta do golpe” foi incluído em denúncia baseada apenas na palavra do delator — sem documentos, sem gravações, sem testemunhos complementares.
Isso é Direito ou é roteiro de série policial de má qualidade?
SIGILO FURADO E TRAIÇÕES EXPOSTAS
O ponto que agrava ainda mais a situação é o escândalo revelado recentemente: um ex-assessor de Braga Netto declarou ter tido acesso à delação de Mauro Cid em 2023, antes mesmo dela ser usada formalmente pela Polícia Federal. A delação, que deveria ser sigilosa, já havia circulado entre políticos e assessores como um panfleto.
Estamos falando de um documento-chave de investigação sendo compartilhado nos bastidores, com múltiplas versões, manipulações possíveis e interesses claros. Qualquer tribunal sério do mundo invalidaria uma prova com esse nível de contaminação.
O STF ESCOLHEU UM CAMINHO IRREVERSÍVEL?
O que mais impressiona, no entanto, é o comportamento do STF. Mesmo diante de uma delação esfacelada, comprometida e repleta de vícios, o Supremo não recua. Ao contrário, avança — como se a confissão de Mauro Cid fosse a base mais sólida do mundo jurídico.
Por quê?
A resposta, para muitos analistas, está no objetivo final: atingir Jair Bolsonaro. Mauro Cid, nesse enredo, virou uma peça tática, e sua delação, por mais frágil que seja, tornou-se o atalho conveniente para o alvo político.
Isso, infelizmente, não é justiça. É vingança institucional. É usar o aparato legal como instrumento de poder, e não como garantidor da ordem e da verdade.
UM CASAMENTO FORÇADO COM UMA TESTEMUNHA INFIEL
A metáfora a seguir é mais que apropriada para ilustrar esse casamento: O STF parece ter se casado, às pressas e sem consentimento racional, com uma testemunha infiel. E pior: ignora todas as traições, contradições e mentiras no processo. Fecha os olhos para o adultério jurídico.
No final, quem sofre não é apenas o réu — é o Brasil. É a democracia, é a credibilidade das instituições, é o direito que se vê dobrado ao gosto dos poderosos.
E AINDA QUEREM CHAMAR ISSO DE JUSTIÇA?
O cidadão comum já entendeu que há algo muito errado quando o próprio STF, que tanto criticou os métodos da Lava Jato, agora faz muito pior — com menos transparência, mais truculência e absoluto desprezo pelas garantias legais. Não é à toa que parte da população já perdeu o respeito e a confiança por aqueles que deveriam ser os guardiões da Constituição.
A verdade, neste caso, foi a primeira vítima.
E VOCÊ?
Acha que Alexandre de Moraes e o STF vão, algum dia, prestar contas por essa avalanche de ilegalidades? Ou o Brasil já virou mesmo um país onde a lei serve só para os inimigos?
Deixe seu comentário, compartilhe essa análise e continue acompanhando os desdobramentos aqui na coluna Falando Sobre o Assunto, com de Edivaldo Santos, no “Veja Aqui Agora”.