Há momentos em que o cenário político brasileiro parece uma repetição infinita de uma novela mal escrita — daquelas que o telespectador só continua assistindo porque quer descobrir até onde os roteiristas terão coragem de descer. E, ao que tudo indica, essa criatividade não tem fundo. A cada semana, aparece uma nova “surpresinha”: ministros indignados, jornalistas estarrecidos, banqueiros que não sabiam de nada e, claro, aquele famoso jeitinho cordial que Sérgio Buarque de Holanda descreveu com tanto primor. Só faltou avisar que o “homem cordial” do século XXI anda de jatinho, dá consultoria milionária e tem amigos muito bem posicionados.
O comentário que você leu acima sintetiza perfeitamente esse Brasil real — não o das campanhas publicitárias, mas o das relações confortáveis, dos telefonemas discretos, das portas que só abrem para quem já está dentro. É um retrato cru de como certos agentes do poder se protegem, se abraçam e se blindam. E blindam-se tão bem que nem código de ética entra: afinal, para quê ética, quando se tem amigos influentes? Ética é para quem anda de ônibus e enfrenta fila no SUS, não para quem faz escala em Lisboa dentro de jatinhos alheios.
A ironia maior é ver jornalistas — aqueles que deveriam fiscalizar o poder — comportando-se como assessores de luxo. Aplausos de pé para censura, silêncio constrangido diante de falcatruas, indignação seletiva quando o escândalo respinga nos seus favoritos. É quase uma coreografia: bate-se palmas para o STF quando ele assume o papel que “interessa”, mas basta aparecer uma foto comprometedora no jatinho errado e pronto: vira escândalo, vira pauta, vira moralismo televisivo. O teatro da “indignação ética”, patrocinado por quem aplaudiu cada tijolo colocado no muro que hoje finge criticar.

E o povo? Ah, o povo só observa. Parte perplexo, parte cansado, parte já acostumado com o roteiro. Porque, no fim, tudo parece um grande acordo tácito: banqueiros, ministros e jornalistas de renome circulam no mesmo ambiente social, falam a mesma língua, protegem-se com a mesma cordialidade escusa. E sempre que alguém aponta a inconsistência, a hipocrisia, o conluio — esse alguém vira o exagerado, o radical, o “sem provas”.
As provas, aliás, são sempre o argumento perfeito. “Não há provas.” “Não há materialidade.” “Não há confirmação.” Mas há amizades, jatinhos, consultorias milionárias, decisões convenientemente sigilosas, conversas de bastidor e uma sucessão de coincidências que fariam um roteirista de série policial desistir por medo de ser acusado de exagero.
Mas quando tudo isso acontece entre a elite do país, vira apenas… tradição. Tradição nacional. Tradição cordial.
Por isso, quando vejo jornalistas que ajudaram a construir a blindagem do sistema, criaram e alimentaram o mostro que assombra há muito tempo, agora fazendo beicinho moralista, eu respondo com a elegância que o momento exige: faça-me o favor. Não é indignação — é teatro. Não é coragem — é cálculo. Não é jornalismo — é parceria.
E no meio do espetáculo, sobra para quem tenta questionar o óbvio. Quem ousa fazer contraponto vira alvo. Quem faz perguntas se torna problema. Quem discordar, vai parar em inquérito. Mas alguém precisa continuar apontando o dedo para esse compadrio que atravessa instituições, redações e gabinetes.
Porque se a Globo tem quarenta vezes mais audiência, nós ainda temos algo que eles já perderam faz tempo: autenticidade.
Por aqui, seguimos falando sobre o assunto — doa a quem doer.
E, pelo visto, vai doer em muita gente.