A declaração do ministro Luís Roberto Barroso, em julho de 2023, durante um congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), deixou escapar o que muitos brasileiros já desconfiavam: o Supremo Tribunal Federal não tem apenas o papel de julgar, mas parece ter assumido também a missão política de combater um movimento ideológico específico. Ao reagir às vaias de profissionais de enfermagem, Barroso disse: “Nós derrotamos a censura, nós derrotamos a tortura, nós derrotamos o bolsonarismo para permitir a democracia e a manifestação livre de todas as pessoas”.
Mas será que, de fato, o STF quer permitir a manifestação livre de todas as pessoas? Ou apenas de quem não se identifica com o bolsonarismo?
A fala do ministro revela mais do que um posicionamento pessoal. Expõe a ideia de que o bolsonarismo precisa ser derrotado — não nas urnas, mas nas cortes, nos inquéritos, nas redes sociais e, se necessário, por medidas coercitivas. O ex-presidente Jair Bolsonaro, maior liderança desse movimento, tornou-se alvo central. Impedido de participar da vida política de forma plena, limitado judicialmente e transformado em réu em diversos processos, Bolsonaro simboliza o alvo principal de uma caçada jurídica sem precedentes.
STF como ator político
O Supremo, que deveria ser o guardião da Constituição, cada vez mais atua como um ator político. Não é raro ver medidas que extrapolam os limites da imparcialidade e passam a soar como perseguição seletiva. Enquanto vozes da esquerda têm liberdade para atacar e até difamar adversários, figuras da direita são censuradas, têm redes sociais derrubadas, bens apreendidos, celulares e computadores confiscados em operações de “pesca probatória”.
Não se trata de defender ilegalidades ou excessos cometidos em nome de qualquer ideologia. O ponto é: o mesmo rigor não é aplicado a todos. A balança da Justiça parece pender sempre para um lado.
O efeito contrário
Curiosamente, o esforço em silenciar o bolsonarismo tem surtido o efeito contrário. A cada tentativa de sufocar o movimento, mais ele ganha corpo e se fortalece. É como massa de bolo: quanto mais se bate, mais cresce.
Bolsonaro pode estar limitado judicialmente, mas o sentimento que ele representa continua vivo. Nas ruas, nas igrejas, nos grupos de WhatsApp e em comunidades digitais, o bolsonarismo segue firme. Tentam enterrar o movimento, mas a cada ação arbitrária do STF, mais brasileiros se sentem injustiçados e se aproximam dele.
A Justiça que escolhe lados
O grande problema é que, ao agir como um partido de oposição, o STF se distancia da sua função constitucional. O tribunal não deveria ser “de esquerda” nem “de direita”. Mas hoje, aos olhos de muitos, a Corte parece ter escolhido um lado — e não é o da imparcialidade.
O resultado dessa escolha é perigoso: cria-se a percepção de que a Justiça brasileira não serve ao povo, mas a um projeto ideológico. Isso mina a credibilidade das instituições, gera revolta e aprofunda a polarização.
O STF pode até desejar derrotar o bolsonarismo, mas a verdade é que nenhum tribunal é capaz de derrotar um sentimento popular. A história mostra que ideias não se destroem com censura, processos ou prisões. Elas só deixam de existir quando perdem relevância para a sociedade. E, pelo que se vê, esse ainda não é o caso do bolsonarismo.
Enquanto a Corte continuar tratando parte dos brasileiros como inimigos, continuará alimentando exatamente aquilo que pretende extinguir.