Em um caso que chocou a população de Nova Mutum (MT), Roseni da Silva Karnoski, de 52 anos, foi assassinada dentro de casa, na zona rural da cidade, com um tiro de espingarda calibre 12 no tórax. O principal suspeito é seu próprio marido, Valdecir Karnoski, de 55 anos, que foi preso em flagrante. O crime ocorreu na noite de terça-feira, 24 de junho, e é investigado como feminicídio.
Segundo as investigações da Polícia Civil, o disparo não foi acidental, como inicialmente alegado pelo autor. Testemunhas, históricos de violência doméstica e inconsistências nas versões apresentadas por Valdecir contribuíram para a mudança na linha investigativa.
Um sonho interrompido por um crime brutal
Roseni tinha um desejo simples: conquistar sua carteira de habilitação (CNH). Porém, esse sonho foi duramente combatido pelo marido, que demonstrava posturas controladoras e machistas. Mesmo contrariando Valdecir, ela se matriculou escondida em uma autoescola, estudou e obteve sua CNH. A conquista pessoal, no entanto, resultou em uma violenta reação: em 2021, Valdecir atirou nela pela primeira vez, também dentro da residência do casal.
Na ocasião, a vítima sobreviveu e, mesmo com o histórico de violência, decidiu continuar o relacionamento após o pedido de perdão do companheiro. O episódio foi tratado, na época, como acidente e Valdecir permaneceu em liberdade, embora tenha perdido o registro de CAC (Colecionador, Atirador e Caçador).
Manipulação e coerção: a CNH virou pretexto para mais violência
Com a cassação de seu registro, Valdecir forçou Roseni a tirar uma licença de CAC em nome dela, o que possibilitou que ele continuasse mantendo armas em casa. Pessoas próximas relataram que ela apenas atendeu ao pedido por medo e pressão.
A tragédia se completou em 2025, quando, após mais um desentendimento, Valdecir disparou novamente contra a esposa — dessa vez, o tiro foi fatal. Ele voltou a alegar que foi um acidente, mas a Polícia Civil descartou essa hipótese após analisar a trajetória do projétil, o estado de embriaguez do autor, o histórico de violência doméstica e as versões contraditórias apresentadas.
Histórico de violência ignorado anteriormente
Em depoimento, o delegado Jean Paulo, responsável pelo caso, revelou que em julho de 2021 Valdecir chegou a ser denunciado por ameaças e disparos dentro de casa. Roseni chegou a relatar temer por sua vida, mas na delegacia recuou e não formalizou a denúncia, possivelmente por questões emocionais e medo das consequências.
“O autor já tinha antecedentes, conhecimento de armas e histórico de agressões. As armas estavam registradas em nome da vítima porque ele já havia perdido o direito ao CAC justamente por conta da violência doméstica anterior”, destacou o delegado.
Justiça agora trata o caso com o rigor necessário
Com os novos elementos da investigação, Valdecir foi autuado por feminicídio e segue preso. A expectativa é de que ele seja julgado com base na Lei Maria da Penha e no Código Penal, podendo enfrentar uma pena de 20 a 40 anos de reclusão, considerando os agravantes e o histórico de tentativa anterior.
O caso de Roseni escancara uma realidade ainda presente no Brasil: o machismo estrutural e a violência doméstica que, muitas vezes, é ignorada ou relativizada — até que seja tarde demais.