A trajetória do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro, entrou para os anais da justiça brasileira como um dos capítulos mais conturbados e contraditórios da história recente. Após firmar um acordo de delação premiada com a Polícia Federal, Mauro Cid não apenas viu os benefícios evaporarem, como também acabou condenado pela própria estratégia que acreditava ser sua salvação.
Na mais recente reviravolta, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, barrou o perdão judicial que havia sido previsto na delação. O motivo? Segundo a PGR, Cid omitiu fatos relevantes, usou uma narrativa seletiva e causou prejuízos ao interesse público. Ou seja, tentou jogar dos dois lados e agora colhe o que plantou.
Delação ou teatro encenado?
A delação premiada, instrumento poderoso da Justiça brasileira para desbaratar organizações criminosas, exige uma condição básica: sinceridade. E foi justamente esse o ponto que faltou. O próprio Cid admitiu, em momentos gravados, que dizia o que a Polícia queria ouvir. Se acomodou a uma narrativa pronta, ensaiada, e entregou um roteiro conveniente às autoridades. Uma delação não pode ser um teatro montado para agradar investigadores, ainda mais quando envolve consequências jurídicas profundas para terceiros.
O caso mais emblemático foi o de Felipe Martins, que permaneceu preso por meses com base em informações distorcidas — ou omitidas — por Mauro Cid. Ele sabia que Felipe não havia viajado aos EUA, como sustentava parte da acusação. E mesmo assim, preferiu o silêncio. “Não me perguntaram”, justificou. Uma explicação que beira o deboche.
PGR seletiva com a seletividade?
Mas a crítica não para em Mauro Cid. A própria Procuradoria-Geral da República, enquanto aponta o dedo contra a “narrativa seletiva” do militar, acaba praticando a mesma seletividade ao usar os trechos que lhe interessam da delação. Ignora áudios espontâneos, contradições e até confissões gravadas que colocam a credibilidade do delator sob suspeita. Ora, se o conteúdo é duvidoso, então todo ele deveria ser descartado — ou pelo menos tratado com mais cautela. Não se pode escolher as partes que favorecem a acusação e ignorar as que podem comprometer a narrativa oficial.
Um acordo que virou ruína
Cid sonhava com uma pena leve, inferior a dois anos, para preservar seu salário, sua patente e até a chance de promoção no Exército. Tudo isso ruiu. Com a nova posição da PGR, ele poderá pegar entre 14 e 30 anos, mesmo com a redução de um terço que ainda lhe é concedida. Ou seja, não apenas deve cumprir pena em regime fechado, como também provavelmente será expulso das Forças Armadas.
É o retrato de alguém que apostou alto — e perdeu tudo. Amigos, confiança, dignidade e até a “recompensa” prometida por sua colaboração.
Reflexão final: o preço da desonestidade
A história de Mauro Cid expõe um problema profundo na engrenagem da justiça brasileira: a politização dos acordos, o uso estratégico de delações e a permissividade com versões ensaiadas. Mas também levanta uma questão moral: até onde vale a pena negociar com a verdade em nome da autopreservação?
O caso é um alerta para todos: a delação premiada não é uma barganha de conveniência. É, ou deveria ser, um compromisso ético com a verdade. Mauro Cid traiu esse princípio — e agora enfrenta as consequências.
E o pior de tudo: arrastou inocentes consigo nesse caminho de omissões, covardia e silêncio cúmplice.
O que você acha? Mauro Cid foi vítima de um sistema seletivo ou arquiteto do próprio desastre? Deixe sua opinião.
A coluna Falando Sobre o Assunto com o jornalista Edivaldo Santos analisa e traz informações sobre tudo o que acontece nos bastidores do poder no Brasil e que podem influenciar nos rumos da política, da economia, do gospel e em tudo que acontece no Brasil e no mundo. Para envio de sugestões de pautas e reportagens, entre em contato com a nossa equipe pelo e-mail veja.aquiagora@hotmail.com.