João Batista é uma das figuras mais importantes do Novo Testamento. Ele não apenas preparou o caminho para o Messias, como também foi mencionado nas profecias do Antigo Testamento, especialmente em Isaías 40:3 e Malaquias 3:1. Seu ministério marcou o início de um novo tempo na história da redenção.
Além de profeta, João tinha uma conexão única com Jesus: eram parentes. Segundo Lucas 1:36, Isabel, mãe de João, era prima de Maria, mãe de Jesus. Isso significa que João e Jesus eram familiares, ainda que seus ministérios tenham seguido caminhos distintos.
Apesar da clareza da missão de João Batista, um episódio registrado em Mateus 11:2-3 e Lucas 7:18-20 levanta uma questão intrigante: João, que havia proclamado Jesus como “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (João 1:29), envia discípulos para perguntar se Jesus era realmente o Messias ou se deveriam esperar outro. Essa dúvida foi genuína? Ou haveria outro propósito por trás dessa pergunta?
O Contexto Espiritual e Político da Época
Para entender esse questionamento, é essencial compreender o cenário em que João Batista pregava. O último profeta de Israel havia sido Malaquias, e após ele houve um período de 400 anos sem uma voz profética oficial. Durante esse tempo, Israel passou por diversas crises, incluindo o domínio de impérios estrangeiros e a corrupção religiosa dentro do próprio judaísmo.
O sacerdócio, que deveria conduzir o povo espiritualmente, estava corrompido. Os saduceus, grupo ligado ao Templo e ao culto oficial, estavam politicamente alinhados com Roma e mais preocupados com poder e status do que com a verdadeira adoração. Os fariseus, apesar de zelosos pela Lei, haviam transformado a religião em um sistema pesado de tradições e regras humanas.
Além disso, o Império Romano oprimia Israel, cobrando impostos abusivos e subjugando a nação. Os judeus esperavam um Messias que trouxesse libertação política e restaurasse a glória de Israel. João Batista surge nesse contexto, chamando o povo ao arrependimento e confrontando a hipocrisia dos líderes religiosos (Mateus 3:7-10).
A Dúvida de João Batista: Uma Questão de Expectativa?
A prisão de João Batista foi um marco significativo. Ele foi encarcerado por ordem de Herodes Antipas após denunciar publicamente o casamento ilícito do governante com Herodias (Mateus 14:3-4). No cárcere, privado de sua missão e sabendo que poderia ser executado, João envia seus discípulos a Jesus com a pergunta:
“És tu aquele que estava para vir ou devemos esperar outro?” (Mateus 11:3).
Aqui surgem duas interpretações principais:
- João realmente teve dúvidas?
Alguns teólogos sugerem que, ao ver que Jesus não estava instaurando um juízo imediato contra os ímpios—como João havia pregado (Mateus 3:10-12)—ele pode ter questionado se sua visão do Messias estava correta. A expectativa popular era que o Cristo trouxesse libertação política e estabelecesse o Reino de Deus de forma visível e poderosa.
- João quis direcionar seus discípulos a Jesus?
Outra interpretação argumenta que João sabia quem Jesus era, mas enviou seus discípulos para que eles próprios reconhecessem o Messias. João sempre enfatizou que ele era apenas o precursor, e que Jesus deveria crescer enquanto ele diminuía (João 3:30).
A Resposta de Jesus: Uma Confirmação Profética
Jesus não responde diretamente, mas aponta para as obras que realiza:
“Ide e anunciai a João o que estais ouvindo e vendo: cegos veem, coxos andam, leprosos são purificados, surdos ouvem, mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho. E bem-aventurado é aquele que não se escandalizar por minha causa.” (Mateus 11:4-6).
Aqui, Jesus faz referência direta a Isaías 35:5-6 e 61:1, mostrando que sua missão estava alinhada com as Escrituras. Ele não veio como um guerreiro político, mas como o Salvador que transforma vidas.
Após essa resposta, Jesus faz uma das declarações mais impressionantes sobre João Batista:
“Em verdade vos digo que, entre os nascidos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Batista; mas aquele que é menor no Reino dos Céus é maior do que ele.” (Mateus 11:11).
Isso significa que João foi o maior entre os profetas, pois teve a missão única de preparar diretamente o caminho do Senhor. No entanto, aqueles que fazem parte do Reino de Deus experimentam uma realidade ainda mais gloriosa do que João pôde ver em vida.
Lições para os Cristãos Hoje
- Mesmo os mais firmes na fé podem passar por momentos de questionamento.
João Batista era um homem de Deus, mas as circunstâncias difíceis e as expectativas frustradas podem abalar qualquer pessoa. Isso nos lembra que nossa fé não deve ser baseada em emoções, mas na verdade revelada por Deus.
- O Messias não veio atender às expectativas humanas, mas cumprir o plano de Deus.
Os judeus esperavam um libertador político, mas Jesus veio para trazer libertação espiritual. Da mesma forma, nem sempre Deus age como esperamos, mas sempre cumpre Seus propósitos.
- As Escrituras são a base para reconhecer a verdade.
Jesus não convenceu João com palavras persuasivas, mas apontou para as profecias cumpridas. Isso nos ensina que devemos confiar na Palavra de Deus acima de qualquer circunstância.
Conclusão
João Batista não perdeu a fé em Jesus, mas sua pergunta revela o impacto das circunstâncias na percepção humana. Sua missão estava cumprida, e Jesus confirmou sua importância no plano divino.
O episódio de João na prisão nos lembra que, mesmo em tempos de incerteza, devemos olhar para as obras de Cristo e confiar que Ele é, de fato, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.
Pastor Luciano Gomes
Teólogo