Há escândalos que chocam. Outros cansam. E há aqueles que, de tão explícitos, parecem rir da nossa cara. O caso envolvendo o ministro do STF Alexandre de Moraes e sua esposa, a advogada Viviane Barci, se encaixa perfeitamente nessa terceira categoria: o escândalo que nem faz mais questão de se esconder.
Estamos falando de um cenário em que a confusão entre o público e o privado não é um desvio ocasional — é método. Patrimonialismo em estado puro. Daquelas aulas práticas que o Brasil insiste em repetir, geração após geração, como se fossem parte obrigatória do currículo da República.
Dos processos que passam pelo escritório da advogada, 22 de 31 chegaram ao Supremo depois da posse do marido como ministro. Coincidência? Claro. No Brasil, coincidência é praticamente política pública.
Agora, façamos um exercício simples de imaginação — algo que, curiosamente, certas instituições parecem ter abandonado. E se fosse alguém da família Bolsonaro? Um escritório milionário, atuando diretamente no STF, com contratos astronômicos, influência evidente e silêncio institucional absoluto? A essa altura, já teríamos CPI, manchetes em letras garrafais, editoriais inflamados e talvez até helicópteros sobrevoando o bairro.
Isso, sem contar a famosa 24 horas para explicar, ou até mesmo a famosa visita da Polícia Federal na casa para levar celulares, notebooks, PCs e outros para a costumeira pesca probatória, para tentar encontrar motivos para justificar crimes ou irregularidades.
Mas como não é, reina a serenidade. O silêncio confortável. O silêncio cúmplice.
A pergunta que ninguém responde — e talvez ninguém queira responder — é direta: qual é o diferencial competitivo desse escritório? Currículo acadêmico extraordinário? Produção jurídica revolucionária? Reconhecimento histórico na advocacia brasileira? Ou seria algo mais… doméstico?
Quem, até pouco tempo atrás, tinha ouvido falar nessa advogada? Quem consegue, em prazo tão curto, contratos que beiram os R$ 129 milhões sem uma influência robusta por trás? No Brasil, talento até ajuda. Mas conexões ajudam mais.
E não estamos falando apenas de números. Estamos falando da corrosão dos valores básicos da advocacia, da justiça e da própria ideia de República. Quando o Supremo declara inconstitucional um artigo do Código de Processo Civil que impedia a atuação de escritórios de familiares de ministros na própria Corte, não é só a lei que cai — cai o pudor. Cai a vergonha. Cai qualquer tentativa de parecer minimamente ético.
A sensação é clara: eles se sentem intocáveis. Protegidos por um sistema que não cobra, não investiga, não questiona. Um manto espesso de impunidade que cobre tudo — e todos — que importam.
E aí surge a pergunta mais constrangedora de todas: cadê as instituições?
Cadê o Ministério Público Federal?
Cadê a OAB, tão rápida para notas quando convém?
Cadê a AGU, tão ágil quando se trata de assuntos dos seus interesses?
Cadê alguém?
Nada. Nenhuma investigação. Nenhuma oitiva. Nenhum “explique-se em 48 horas”. Zero. Um silêncio ensurdecedor, que diz muito mais do que qualquer discurso institucional.
Talvez seja isso mesmo. Talvez este seja o tal “novo normal” da República. Um país onde o lobby conjugal não escandaliza, a influência não constrange e a justiça perdeu até o hábito de fingir imparcialidade.
No Brasil de hoje, o problema não é a falta de provas. É a sobra de proteção.
A coluna Falando Sobre o Assunto com o jornalista Edivaldo Santos analisa e traz informações sobre tudo o que acontece nos bastidores do poder no Brasil e que podem influenciar nos rumos da política, da economia, do gospel e em tudo que acontece no Brasil e no mundo. Para envio de sugestões de pautas e reportagens, entre em contato com a nossa equipe pelo e-mail veja.aquiagora@hotmail.com.