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Diplomacia do Silêncio: quando o Itamaraty finge não ouvir os gritos

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Há notas diplomáticas que informam, outras que explicam, e algumas que, sem querer, escancaram a alma de um governo. A do Itamaraty sobre o banho de sangue no Irã pertence à terceira categoria. Não por excesso de palavras — mas pela pobreza moral cuidadosamente embalada em linguagem neutra.

O governo brasileiro resolveu tratar a repressão iraniana como quem comenta um deslizamento de terra: lamentável, triste, mas essencialmente impessoal. Nada de algozes, nada de vítimas com nome, nada de Estado assassino. Apenas “mortes” e “famílias afetadas”. Um vocabulário tão asséptico que quase exige luvas descartáveis para ser lido.

Quando milhares de civis são mortos por um regime teocrático armado até os dentes, o Brasil escolhe a delicadeza. Não vá ferir sensibilidades. Afinal, sempre existe o risco de parecer inconveniente ao condenar fuzilamentos em praça pública.

O trecho mais constrangedor da nota não é o silêncio sobre os assassinos, mas o sermão sobre soberania. Como se manifestantes desarmados tivessem algum poder de decisão “soberana” enquanto são perseguidos, presos, torturados ou executados. O Itamaraty fala em “diálogo construtivo” como se estivesse mediando uma reunião de condomínio, e não um massacre patrocinado pelo Estado.

A ironia maior é que o discurso soa muito bonito quando lido em voz alta, mas fede quando interpretado. “Atores”, segundo a diplomacia brasileira, são jovens sem armas enfrentando milícias religiosas treinadas para matar. Um diálogo, nesse contexto, só se existir via interrogatório.

Nada disso é acidente. O desconforto do governo Lula diante de ditaduras não é circunstancial — é histórico. Existe uma constância ideológica disfarçada de pragmatismo, uma complacência seletiva que sempre encontra justificativa elegante quando o autoritarismo fala outra língua que não o inglês.

Antes era anti-imperialismo. Depois virou realpolitik. Agora atende pelo nome sofisticado de “Sul Global”. O rótulo muda, mas o conteúdo permanece: uma tolerância indulgente com regimes que tratam direitos humanos como detalhe opcional.

Não se trata de ignorância diplomática, mas de afinidade política. Democracia, para esse campo ideológico, nunca foi valor universal — apenas ferramenta circunstancial. Quando atrapalha alianças, vira discurso secundário; quando convém, reaparece em tom inflamado.

A nota do Itamaraty não envergonha por ser fria. Envergonha por ser coerente. Coerente com um projeto que relativiza a barbárie quando ela vem do lado “certo” do mapa. Coerente com um governo que fala muito em humanidade, desde que ela não atrapalhe a geopolítica dos amigos.

No fim, o Brasil não escolheu o silêncio por cautela. Escolheu por convicção. E isso, convenhamos, é o que mais assusta.

Jornalista (CRP/BA 0006663/BA), radialista (DRT 5072/BA) e youtuber. Como jornalista já atua há 10 anos e atualmente é diretor de jornalismo do Portal Veja Aqui Agora . Desde 1984, atua no rádio, começando sua trajetória na Rádio Fundação Ide e Ensinai, em São Gonçalo dos Campos, na Bahia. Também trabalhou na Radio Cultura AM, Carioca AM, Betel FM, Cidade FM. Foi diretor da Comunidade FM, todas em Feira de Santana e atualmente trabalha na Rádio Elos, onde apresenta o Programa Bom Dia Felicidade, de segunda a sexta-feira, das 10h ao meio dia, também na mesma cidade. Também dirigiu a Rádio Shekiná FM em Vinhedo São Paulo e trabalhou como apresentador na Jerusalém FM na capital paulista. Como youtuber, administra os canais “Veja Aqui Agora News”, com mais de 160 mil assinantes e “Edivaldo Santos News” com mais de 15 mil assinantes. Para contato: vejaaqui.agora@hotmail.com

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