A política costuma ser implacável com quem acredita que o eleitor tem memória curta. O caso da professora Dayane Pimentel é um exemplo que merece ser analisado com atenção, não apenas pelos números das urnas, mas pelo caminho político percorrido entre 2018 e 2026.
Em oito anos, a professora saiu de uma votação de 136.742 votos para 5.207 votos na disputa por uma vaga na Câmara dos Deputados. Uma queda que não pode ser explicada apenas por circunstâncias eleitorais. Há, no mínimo, uma mudança profunda na relação entre a candidata e o eleitorado que um dia lhe concedeu uma expressiva demonstração de confiança.
E é justamente aí que começa a pergunta incômoda: o que aconteceu com a Dayane Pimentel de 2018?
2018: a força de uma bandeira e o apoio de Bolsonaro
Em 2018, Dayane Pimentel entrou na política eleitoral pela primeira vez. Naquele momento, vestiu a camisa da direita e esteve alinhada ao então candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro.
O apoio de Bolsonaro foi decisivo para sua projeção política. A professora passou a ser identificada na Bahia como uma espécie de representante do bolsonarismo, chegando a ser conhecida como “Bolsonaro de saia”.
O resultado apareceu nas urnas.
Dayane foi eleita deputada federal e alcançou 136.742 votos, ficando na quarta posição entre os candidatos eleitos para a Câmara dos Deputados na Bahia.
Não foi uma votação qualquer.
Foi uma votação expressiva, construída em um ambiente político no qual Bolsonaro representava uma força eleitoral crescente e no qual Dayane se apresentava claramente como integrante daquele movimento.
Naquele momento, havia uma mensagem política bastante definida: direita, Bolsonaro e oposição ao sistema político tradicional.
O eleitor sabia, portanto, quem era Dayane Pimentel e o que ela representava.
O rompimento que mudou o caminho
Depois da eleição, porém, veio a ruptura com Bolsonaro.
Dayane deixou de ser uma aliada para se transformar em crítica do ex-presidente. Passou a atacá-lo politicamente, criticá-lo e assumir uma posição de oposição ao bolsonarismo.
Aqui não se discute o direito de qualquer político mudar de opinião. Em uma democracia, ninguém é obrigado a permanecer eternamente aliado de quem ajudou a elegê-lo.
Mas existe uma consequência política que não pode ser ignorada: quando um político constrói sua imagem eleitoral associada a uma determinada liderança e depois rompe radicalmente com essa liderança, precisa estar preparado para perder parte — ou até grande parte — da base que ajudou a colocá-lo no poder.
Foi exatamente o que os números seguintes começaram a mostrar.
2020: a primeira grande queda
Em 2020, já rompida com Bolsonaro, Dayane Pimentel disputou a Prefeitura de Feira de Santana.
O resultado foi 13.949 votos.
A diferença em relação aos 136.742 votos conquistados dois anos antes para deputada federal era gigantesca.
É verdade que uma eleição para prefeito possui características diferentes de uma eleição proporcional. São disputas distintas, com estratégias, alianças e circunstâncias próprias.
Mas o número também revelava algo politicamente importante: aquela força eleitoral extraordinária de 2018 não havia sido automaticamente transferida para uma candidatura majoritária.
A antiga imagem de grande representante da direita na Bahia já começava a perder força.
2022: a queda continua
Em 2022, Dayane voltou a disputar uma vaga para deputada federal.
E novamente os números foram reveladores.
Dessa vez, recebeu 29.979 votos e terminou na 68ª posição.
Compare-se:
2018 — 136.742 votos.
2022 — 29.979 votos.
Uma redução de mais de 100 mil votos.
Não estamos falando de uma pequena oscilação eleitoral. Estamos diante de uma mudança significativa na capacidade de mobilização de votos.
A candidata que em 2018 havia surgido como uma das grandes forças eleitorais da direita baiana já não conseguia reproduzir nem de perto aquele desempenho.
2026: a tentativa de reencontrar a direita
Chegamos então a 2026.
Dayane Pimentel voltou a se apresentar como candidata de direita.
Mas há uma questão que a política não permite esconder: o eleitor precisa acreditar na identidade política que o candidato apresenta.
E os números das urnas indicam que, dessa vez, a estratégia não convenceu.
Dayane obteve apenas 5.207 votos na disputa por uma vaga de deputada federal e terminou como suplente.
É impossível olhar para essa sequência sem perceber uma trajetória de forte declínio eleitoral.
De 136.742 votos em 2018 para 5.207 em 2026.
De uma das candidatas mais votadas da Bahia para uma candidatura que terminou com pouco mais de cinco mil votos.
De “Bolsonaro de saia” a uma política que tentou novamente se apresentar à direita, mas que não conseguiu recuperar a confiança eleitoral que um dia teve.
O eleitor pode até perdoar, mas não esquece
Talvez a grande lição da trajetória de Dayane Pimentel esteja justamente aí.
O eleitor pode mudar de opinião. Pode abandonar um político. Pode mudar de lado. Pode apoiar outra liderança.
Mas o eleitor também observa coerência.
Na política, não basta dizer que é de direita, de esquerda, de centro ou qualquer outra coisa. É preciso construir uma trajetória que faça o eleitor acreditar que aquela posição não é apenas uma estratégia eleitoral para determinada eleição.
E talvez seja essa a dificuldade enfrentada por Dayane em 2026.
Depois de romper com Bolsonaro, criticá-lo e se posicionar contra o bolsonarismo, retornar ao discurso de direita pode ter produzido uma pergunta na cabeça de parte do eleitorado: “Por que agora?”
E quando o eleitor começa a desconfiar da autenticidade de um posicionamento político, recuperar credibilidade pode ser muito mais difícil do que conquistá-la pela primeira vez.
A matemática que a política não consegue esconder
Os números são duros.
Em 2018, Dayane recebeu 136.742 votos.
Em 2020, na disputa pela Prefeitura de Feira de Santana, foram 13.949 votos.
Em 2022, voltou à disputa para deputada federal e conseguiu 29.979 votos.
Em 2026, caiu para 5.207 votos.
É uma trajetória que, independentemente das justificativas políticas, apresenta uma tendência muito clara: perda de força eleitoral.
E existe algo ainda mais simbólico nessa comparação.
Em 2018, Dayane não precisou explicar ao eleitor que era de direita. Ela representava uma direita que tinha identidade, liderança e um discurso claramente associado a Bolsonaro.
Em 2026, entretanto, a simples declaração de pertencimento à direita não foi suficiente para recuperar o eleitorado perdido.
Isso mostra que política não se faz apenas com rótulos.
O preço das escolhas políticas
Dayane Pimentel tem todo o direito de ter rompido com Bolsonaro. Assim como tem o direito de criticá-lo e, posteriormente, tentar reconstruir sua relação com o eleitorado de direita.
Mas o eleitor também tem o direito de cobrar coerência.
E talvez seja esse o verdadeiro significado dos 5.207 votos de 2026.
Não necessariamente uma sentença definitiva sobre a carreira política da professora, mas certamente um recado das urnas.
A política permite mudar de posição. O que ela não garante é que o eleitor acompanhe essa mudança.
Quem constrói sua carreira política sobre uma determinada bandeira precisa compreender que a bandeira também pertence à memória do eleitor.
Em 2018, Dayane Pimentel foi impulsionada por uma onda política poderosa e pelo apoio de uma liderança que mobilizava e ainda mobiliza uma parcela significativa do eleitorado brasileiro.
Oito anos depois, os números mostram uma realidade completamente diferente.
A Dayane de 2018 recebeu 136.742 votos. A Dayane de 2026 recebeu 5.207.
Entre esses dois números existe uma história de escolhas, rompimentos, mudanças de posicionamento e, sobretudo, de perda de confiança eleitoral.
E a urna, como sempre, não faz discurso.
Ela simplesmente responde.
Falando Sobre o Assunto
A trajetória de Dayane Pimentel deixa uma reflexão que serve não apenas para ela, mas para qualquer político: na política, mudar de lado é um direito; acreditar que o eleitor mudará junto é outra história.
O eleitor não é propriedade de ninguém. Ele não pertence a Bolsonaro, a Lula, a Dayane ou a qualquer outro líder. O voto pertence ao cidadão.
E quando esse cidadão entende que determinado político deixou de representar aquilo que um dia o levou às urnas, ele simplesmente procura outro caminho.
Talvez os 5.207 votos de 2026 sejam, acima de tudo, o retrato dessa escolha.