Uma série de decisões judiciais e movimentos institucionais desencadeou um embate sem precedentes entre órgãos centrais do Estado brasileiro. O episódio envolve o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, e coloca em campos opostos ministros do Supremo Tribunal Federal, a Polícia Federal e o Banco Central.
O estopim ocorreu após críticas públicas do ministro Dias Toffoli à atuação da Polícia Federal, apontando falta de empenho na deflagração de uma operação relacionada a familiares de Vorcaro e outros envolvidos. Diante do ataque, a PF realizou diligências e recolheu materiais considerados relevantes para a apuração.
A surpresa veio em seguida: Toffoli determinou que todo o conteúdo apreendido permanecesse sob custódia do STF, impedindo o acesso dos próprios investigadores. Após forte reação, o ministro encaminhou os documentos à Procuradoria-Geral da República para análise técnica, excluindo a PF do trabalho investigativo.
Paralelamente, o ministro Alexandre de Moraes instaurou, por iniciativa própria, um inquérito sigiloso para apurar supostos vazamentos de dados financeiros envolvendo ele próprio, sua família e também Toffoli. As suspeitas recaem sobre informações que teriam saído da Receita Federal e do Coaf.
Moraes busca identificar a origem das informações divulgadas à imprensa, inclusive sobre contratos e negócios que envolvem pessoas próximas a ministros do STF e o Banco Master. O caso inclui a venda de um resort no Paraná e conexões com fundos e empresas ligadas ao banco de Vorcaro, além de relações com a J&F, dos empresários Joesley Batista e Wesley Batista.
Ao investigar o Coaf, o inquérito de Moraes acaba alcançando também o Banco Central e a Polícia Federal, que utilizam dados do conselho em apurações sobre lavagem de dinheiro. Em meio à pressão, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, recebeu em Brasília o presidente do BC, Gabriel Galípolo. A visita reforçou publicamente a cooperação entre as instituições, mas teve como pano de fundo o impasse envolvendo o Banco Master.
No Tribunal de Contas da União, o ministro Jhonatan de Jesus articula uma auditoria no Banco Central, sustentando a tese de que o Master teria sido prejudicado no processo de liquidação. O BC, por sua vez, reagiu com firmeza.
Dois dias após o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, declarar que o caso pode representar a maior fraude bancária já registrada no país, o Banco Central decretou a liquidação da Reag Trust, empresa que inflava ativos ligados ao Banco Master e mantinha conexões com negócios envolvendo familiares de Toffoli.
O caso Banco Master escancarou uma crise institucional marcada por disputas de competência, decisões controversas e desconfiança entre órgãos de investigação, controle e Justiça. Com inquéritos sigilosos, auditorias anunciadas e liquidações decretadas, o episódio segue ampliando tensões no alto escalão do poder público, enquanto levanta questionamentos sobre transparência, normalidade institucional e os limites de atuação de cada autoridade.