No Brasil, a malícia não está em desconfiar demais. Está em fingir que não entendeu. Durante anos, fomos convidados a acreditar que certas frases eram apenas brincadeiras internas, que codinomes eram coincidências linguísticas e que relações próximas entre poder político, jurídico e empresarial não passavam de ruído narrativo. Uma dessas frases atravessou o tempo pedindo para ser levada a sério: “o amigo do amigo do meu pai”.
A mensagem é antiga. Julho de 2007. Não surgiu em redes sociais nem em mesas de bar. Está registrada em e-mail corporativo da Odebrecht, escrito por Marcelo Odebrecht, endereçado a dois executivos da empreiteira. A pergunta é direta, quase burocrática: “Afinal vocês fecharam com o amigo do amigo do meu pai?”. A resposta, ainda mais reveladora: “Em curso”.
Nada poético. Nada metafórico. Nada inocente.
Segundo as delações da própria Odebrecht, o “pai” era Emilio Odebrecht, o “amigo do pai” era Lula, e o “amigo” citado na mensagem era Dias Toffoli, então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF). O contexto não era uma obra qualquer, mas a usina de Santo Antônio, apontada como uma das campeãs de propina da Lava Jato, com mais de R$ 100 milhões em subornos, segundo delatores da Odebrecht e da Andrade Gutierrez.
Mas sigamos com cautela — cautela brasileira, aquela que protege sempre os mesmos.
Avancemos quase duas décadas no tempo. O mesmo personagem, agora ministro do Supremo Tribunal Federal, passa a ser frequentemente associado a um resort de luxo no interior do Paraná. Oficialmente, o empreendimento nunca foi dele. Juridicamente, não há escritura em seu nome. Formalmente, tudo muito correto. Falta apenas combinar com a realidade local.
Na cidade onde o resort está instalado, ninguém chama o lugar pelo nome empresarial. É conhecido como “o resort do Toffoli”. Não por fofoca, mas por costume. O ministro frequenta o local com assiduidade, promove eventos, dispõe de uma casa exclusiva em área privilegiada do complexo e mantém barco permanentemente à disposição na represa próxima. Nada disso prova propriedade. Mas tudo isso constrói poder simbólico.
E no Brasil, poder simbólico vale mais do que papel passado.
O resort mudou de donos no papel, passou por parentes, por negociações empresariais sofisticadas e terminou oficialmente nas mãos de um advogado ligado ao grupo J&F. Mais uma coincidência elegante desse capitalismo de relações cruzadas que só prospera onde perguntas são vistas como afrontas.
Quando surgem relatos sobre jogos de azar no local — alguns legais, outros nem tanto —, a resposta é previsível: negativas formais, silêncio institucional e a velha blindagem. O ministro não responde. Não comenta. Não esclarece. Afinal, membros da Suprema Corte parece não dever explicações a população. Muito menos quando as perguntas são desconfortáveis.
E assim seguimos vivendo num país onde nada é de ninguém, mas tudo tem dono. Onde ninguém manda, mas todos obedecem. Onde ninguém fecha nada, mas tudo está sempre “em curso”.
A frase de Marcelo Odebrecht não envelheceu mal. Pelo contrário: tornou-se didática. “O amigo do amigo do meu pai”, se referindo a Dias Toffoli, em planilha de propinas da Odebrecht, não descreve apenas um personagem. Descreve um sistema. Um arranjo informal onde poder não se registra em cartório, não aparece em contratos, mas circula livremente entre gabinetes, governos e grandes negócios.
Chega de ingenuidade. Não é malícia questionar. Malícia é fingir que não entendeu a mensagem — quando ela foi escrita, respondida e, ao que tudo indica, muito bem compreendida por quem realmente importava.