Há momentos na política brasileira em que a realidade parece ter sido escrita por um roteirista de comédia. O problema é que, neste caso, a conta é paga pelo pagador de impostos.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu, finalmente, acabar com as bets no Brasil. Em 25 de setembro de 2026, o governo editou uma Medida Provisória proibindo a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa, incluindo apostas esportivas e jogos on-line.
Um dia depois, durante um ato político na Zona Leste de São Paulo, Lula classificou as bets como uma “desgraça na vida das pessoas pobres” e afirmou que ninguém fica rico apostando, porque quem fica rico é o dono da bet.
A frase é forte. E o problema não está necessariamente em reconhecer que o jogo pode causar endividamento, dependência e problemas familiares. O próprio governo apresentou dados apontando crescimento dos atendimentos relacionados a transtornos ligados às apostas.
A pergunta incômoda é outra:
Se as bets eram uma “desgraça”, por que o governo demorou tanto para perceber?
A memória seletiva da política
É aqui que começa a parte curiosa dessa história.
Em 2018, durante o governo Michel Temer, a Câmara aprovou a MP 846, que criou a modalidade de apostas de quota fixa sobre eventos esportivos. A medida acabou convertida na Lei 13.756/2018.
E quem estava entre os partidos favoráveis?
O PT.
Durante a votação, o deputado Vicente Cândido (PT-SP), ao encaminhar a posição da bancada, foi direto:
“O PT vota sim.”
Não é interpretação. Está registrado nas notas taquigráficas da própria Câmara dos Deputados.
A legislação de 2018 criou a modalidade de apostas de quota fixa para eventos esportivos. Anos depois, já durante o terceiro governo Lula, o mercado foi regulamentado e os jogos on-line foram incorporados ao regime legal por meio da Lei 14.790/2023.
Ou seja: aquilo que hoje aparece no discurso presidencial como uma espécie de inimigo nacional não nasceu ontem.
E muito menos nasceu escondido de Brasília.
Primeiro regulamenta. Depois arrecada. Agora proíbe.
Aqui entra uma das maiores ironias de toda essa novela.
O governo não apenas permitiu que o mercado existisse.
Regulamentou.
Não apenas regulamentou.
Tributou.
Não apenas tributou.
Arrecadou bilhões.
Segundo dados divulgados pela Receita Federal e repercutidos pelo InfoMoney, a União arrecadou R$ 15,3 bilhões em tributos sobre as bets desde o início do mercado regulado, em janeiro de 2025. Foram R$ 8,94 bilhões em 2025 e R$ 6,32 bilhões entre janeiro e agosto de 2026. A média mensal recente estava próxima de R$ 800 milhões.
E há mais.
O próprio governo informa que 85 outorgas haviam sido concedidas às empresas, cada uma pelo valor de R$ 30 milhões. Resultado: R$ 2,55 bilhões pagos pelas empresas pelas autorizações.
Agora, a mesma atividade que recebeu autorização, regulamentação, fiscalização e tributação está sendo colocada para fora do país por uma canetada.
É quase como abrir um restaurante, vender os ingressos, receber o dinheiro da entrada, cobrar o estacionamento e, depois que todo mundo estiver sentado à mesa, anunciar:
“Senhores, descobrimos que o restaurante faz mal. Todo mundo para fora.”
O problema existia antes da eleição
Ninguém precisa defender as bets para fazer essa pergunta.
Os problemas sociais associados às apostas não surgiram em setembro de 2026.
O endividamento não apareceu na semana passada.
A publicidade agressiva não começou ontem.
O chamado “jogo do tigrinho” não nasceu depois da assinatura da MP.
E as famílias prejudicadas não descobriram o problema somente agora.
O próprio governo afirma que, entre 2018 e 2025, os atendimentos relacionados a jogo patológico e problemas com apostas cresceram cerca de 140%.
Então fica uma dúvida perfeitamente legítima:
Se o problema era tão grave, por que a reação definitiva veio justamente agora?
E aqui não é necessário afirmar uma intenção que não esteja comprovada. Basta olhar o calendário.
A MP foi assinada em 25 de setembro, menos de duas semanas antes do primeiro turno das eleições de 2026. A decisão passou a ocupar espaço central no discurso político do presidente.
A Folha de S.Paulo, em editorial publicado após a decisão, interpretou o movimento como sinal de que Lula estaria governando sob influência do calendário eleitoral e argumentou que os problemas sociais das apostas já eram conhecidos antes. Essa é uma interpretação editorial do jornal, não um fato que se possa apresentar como comprovado.
Mas o calendário está aí.
E calendário, meus amigos, não faz campanha.
Quem faz campanha é político.
O oportunista dessa história, é o candidato Lula, do PT.
A velha política do “agora eu sou contra”
Essa história lembra aquele político que descobre um problema depois que o problema já virou assunto popular.
Primeiro:
“Vamos regulamentar.”
Depois:
“Vamos arrecadar.”
Em seguida:
“Vamos fiscalizar.”
E, quando chega a eleição:
“Vamos acabar com essa desgraça!”
Conveniente, não?
A pergunta que fica é: o que mudou?
Mudou a realidade social?
Em parte, certamente houve agravamento e novos dados.
Mudou a percepção sobre o problema?
Também.
Mas mudou, sobretudo, o ambiente político.
E é justamente aí que o cidadão precisa ficar atento.
Porque política não pode funcionar como uma máquina de apagar memória.
Não adianta apresentar-se como o grande salvador depois de ter participado da construção do problema ou, no mínimo, de ter governado durante sua expansão.
E os R$ 15,3 bilhões?
Ah, esses são interessantes.
Enquanto as bets eram regulamentadas, os cofres públicos recebiam.
Enquanto as empresas pagavam impostos, o dinheiro era bem-vindo.
Enquanto as outorgas eram vendidas, R$ 2,55 bilhões entraram no processo de autorização das empresas.
E agora a atividade foi considerada incompatível com o interesse público.
A matemática é curiosa:
Quando arrecadava, era receita.
Quando virou problema eleitoral, virou desgraça.
É claro que o Estado pode mudar de posição.
Uma atividade legalizada pode ser proibida posteriormente se o Congresso e o governo entenderem que os custos sociais superam seus benefícios.
Isso faz parte da democracia.
Mas existe uma diferença entre corrigir uma política pública e agir como se ela nunca tivesse sido apoiada ou incentivada pelo próprio sistema político.
E essa diferença precisa ser discutida.
O cidadão não pode ser tratado como eleitor sem memória
O brasileiro merece mais do que slogans.
Merece coerência.
Na minha opinião, as bets estavam causando problemas graves, e o governo tinha que tomar providências drásticas, quanto antes.
Em vez disso, o governo Lula passou por um processo de legalização, regulamentação e tributação.
Agora, a poucos dias da eleição, surge a grande cruzada contra as apostas.
Não estou dizendo que a proibição seja certa ou errada.
Estou dizendo que a coerência da narrativa precisa ser examinada.
Porque uma coisa é reconhecer um erro e dizer:
“Nós permitimos, regulamentamos, percebemos consequências graves e decidimos mudar de posição.”
Isso é legítimo.
Outra coisa é construir uma narrativa como se o problema tivesse simplesmente aparecido no quintal do vizinho.
A proibição também não encerra a discussão
A MP tem efeitos imediatos, mas ainda precisa passar pelo Congresso Nacional. O governo também anunciou projeto de lei para tipificar crimes relacionados às apostas.
E existe outro desafio: o mercado ilegal.
Se o consumidor continuar querendo apostar, mas as plataformas legais forem retiradas, a fiscalização terá de impedir que o mercado migre simplesmente para sites clandestinos hospedados no exterior.
O próprio governo reconhece esse desafio e prevê bloqueio de domínios, remoção de aplicativos, restrição de meios de pagamento e outras medidas de combate às plataformas ilegais.
Portanto, acabar com as empresas autorizadas, que aliás, o próprio governo autorizou, é apenas uma parte da história.
A outra parte será descobrir se o Estado conseguirá impedir que as bets ilegais ocupem o espaço deixado pelas legais.
A pergunta que fica
O problema das bets é real.
O sofrimento de famílias endividadas é real.
O risco de dependência é real.
A necessidade de proteção ao cidadão também é real.
Mas existe outra realidade que também precisa ser encarada:
o Estado brasileiro participou da construção desse mercado.
O PT apoiou a criação da modalidade de apostas de quota fixa em 2018. O governo Lula regulamentou e ampliou o mercado em 2023. As empresas receberam autorização para operar. O governo arrecadou bilhões. E, agora, o presidente apresenta a proibição como resposta a uma “desgraça” que atingiu principalmente os pobres.
É por isso que o cidadão tem todo o direito de perguntar:
Por que só agora? por que não cortou antes, o mau pela raiz
Talvez a resposta esteja nos problemas sociais das apostas.
Talvez esteja também na mudança de percepção política.
E talvez esteja no calendário.
Uma coisa, porém, é certa: o eleitor brasileiro não deveria ter memória de apostador — perder hoje e esquecer amanhã.
Porque política não é bet.
E a memória do eleitor não deveria depender de sorte.