Se existe um fenômeno linguístico capaz de surpreender até o português mais flexível, esse fenômeno atende pelo nome de Rosângela da Silva, a nossa primeira-dama, carinhosamente conhecida como Janja. E vamos combinar: quando o assunto é transformar a língua portuguesa em um parque de diversões improvisado, ela é simplesmente imbatível.
Depois de nos presentear com “cidadões globais”, “abrido um caminho”, “uma salma de palmas” e a exótica “Faraona”, eis que surge uma nova joia para a coleção oficial das Janjadas: “atoras principais”. Sim, atoras. Não atrizes, não protagonistas. Atoras.
O momento antropológico aconteceu durante uma entrevista à CNN Brasil. Questionada sobre a participação feminina nas discussões climáticas, Janja, com a segurança de quem conhece intimamente o poder de um neologismo, soltou:
“Eu tenho trabalhado muito, como enviada especial, para colocar as mulheres na centralidade da agenda climática. Mais do que participantes, nós somos atoras principais da mudança climática.”
E assim, com uma frase, a primeira-dama conseguiu inovar tanto na gramática quanto no entretenimento nacional. Afinal, quem precisa de novela das nove quando a política entrega um spin-off linguístico por semana?
A reinvenção da língua — e da paciência nacional
Antes que alguém corra para defender a tese de que a língua é viva (e é mesmo), vale lembrar que até a língua viva precisa de certo bom senso. E, convenhamos, transformar “atores” em “atoras” é o tipo de ousadia que nem Machado de Assis, nem Guimarães Rosa, nem o mais experimental dos poetas concretos ousou tentar.
A impressão é que Janja, decidida a deixar sua marca na História, escolheu começar pela gramática — e escolheu justo aquela parte que não pediu para ser revisada.
Se existisse um Enem específico para autoridades públicas, a prova de redação já viria com alerta em caixa alta:
“NÃO UTILIZAR REFERÊNCIAS JANJÍSTICAS.”
O problema não é errar — é institucionalizar o erro
Todo mundo erra. Eu erro, você erra, o presidente erra, qualquer pessoa erra. Mas a primeira-dama tem o estranho hábito de transformar o erro em conceito.
O que começa como deslize vira bandeira. O que é tropeço vira tese. E o que deveria ser motivo de riso vira argumento político.
E aí alguém aparece para dizer: “Ah, mas você entendeu o que ela quis dizer.”
Entendi, claro. Mas compreender não impede a constatação óbvia: se a primeira-dama está representando o Brasil em fóruns internacionais, seria muito simpático da parte dela levar a língua portuguesa junto — e não submetê-la a acrobacias involuntárias.
Conclusão: um show à parte — involuntário, mas constante
A COP30 já terminou e Janja já garantiu seu lugar como atriz principal — ou melhor, atora principal — do espetáculo paralelo, aquele que envolve gafes, improvisações linguísticas e muita paciência do público.
Se o governo queria projetar o Brasil no cenário internacional, conseguiu. Agora só falta decidir se prefere ser lembrado pela política climática… ou pelo teatro linguístico da primeira-dama.
Até lá, estamos aqui — eu, você, e o dicionário em prantos — apenas falando sobre o assunto.