Esses dias li um texto chamado “Anistia pra quê, pra quem e por quê?”, que critica bastante a ideia de anistiar os envolvidos no dia 8 de janeiro de 2023. E olha, respeito a opinião de quem escreveu, mas sinceramente, acho que a conversa precisa ser um pouco mais justa. Não dá pra comparar tudo como se fosse a mesma coisa. Cada situação tem seu contexto, seu peso e sua realidade.
A anistia que está sendo proposta agora é bem diferente daquela de 1979, lá no fim da ditadura. Naquela época, quem foi anistiado eram torturadores, sequestradores, gente que cometeu crimes gravíssimos contra seres humanos. Hoje, estamos falando de pessoas comuns. Sim, houve vandalismo, quebra-quebra — e eu sou totalmente contra esse tipo de coisa. Mas nem todo mundo que estava ali participou disso. Tem pai de família, idoso, mulher, gente que nem sequer tocou em nada, mas está presa há meses como se fosse um criminoso de guerra.
E o que me preocupa é o uso político que estão fazendo de tudo isso. Está muito claro que existe uma tentativa de eliminar da vida pública qualquer um que tenha ligação com a direita ou com o ex-presidente Jair Bolsonaro. Não é justiça, é perseguição. É como se todo mundo que pensa diferente precisasse ser punido, cancelado, excluído. Isso não é democracia. Democracia é ouvir, é debater, é respeitar o contraditório — mesmo que a gente discorde.
O dia 8 de janeiro teve sim seus erros, mas também foi, para muitos, um protesto. Um ato político contra o resultado da eleição. Protestar faz parte da vida democrática. Agora, quebrar, invadir, destruir, aí já é outra conversa. Mas será que a justiça está sendo justa mesmo? Porque quando é o MST invadindo fazenda, ocupando prédios públicos ou quebrando coisas, a repercussão é outra. Muitos desses atos violentos nem ganham espaço na grande mídia, e os envolvidos raramente são tratados como criminosos.
O que eu defendo é o equilíbrio. Justiça tem que ser igual pra todos. Quem quebrou, quem destruiu, quem incitou a violência, deve sim ser responsabilizado. Mas prender por meses quem estava na rua, ou quem apenas participou de uma manifestação, é injusto. E anistia, nesse caso, pode ser uma forma de colocar as coisas no seu devido lugar, dar uma resposta equilibrada e humanizada.
Essa história de querer comparar tudo com a ditadura também não cola. São tempos diferentes, contextos diferentes, personagens diferentes. E é justamente por isso que a gente precisa analisar com calma. Senão, acabamos criando uma narrativa que não busca justiça, mas sim vingança.
No fim das contas, o que quero dizer é simples: cada coisa no seu lugar. Justiça, sim. Perseguição, não. E que a gente tenha sabedoria pra entender que o Brasil não vai avançar tentando calar quem pensa diferente. O país só cresce quando a gente trata todos com justiça e humanidade — mesmo aqueles com quem a gente não concorda.
Pastor Luciano Gomes, teólogo
Nota: As opiniões de cunho político expressas neste artigo são de exclusiva e total responsabilidade de seu autor e não refletem necessariamente a posição do portal Veja Aqui Agora.