Nos últimos dias, um episódio que envolve diretamente Alexandre de Moraes e Filipe Martins voltou a expor com clareza um problema muito mais profundo do que um simples erro de procedimento. O que estamos presenciando é um abalo sério na credibilidade institucional de um dos poderes mais importantes do país: o Supremo Tribunal Federal.
Quando a narrativa cai por terra
O jogo começou a mudar quando o Departamento de Imigração dos Estados Unidos publicou uma nota oficial esclarecendo que Filipe Martins nunca entrou em solo americano em 30 de dezembro de 2022. Essa informação, simples e objetiva, desmonta toda a base sobre a qual a acusação foi construída — uma base que sustentou uma prisão e medidas restritivas por meses.
O dado não é novo. A defesa já havia apresentado provas claras: bilhetes aéreos mostrando deslocamento interno no Brasil, geolocalização, extratos de aplicativos de transporte. Tudo isso foi ignorado. E, de repente, quando a pressão vem de fora — dos EUA e com o envolvimento do Federal Bureau of Investigation — o ministro age como quem foi pego de surpresa.
A estratégia clássica: transferir a culpa
Quem acompanha política há mais tempo sabe que, quando a corda aperta, o roteiro é quase sempre o mesmo: o responsável busca um bode expiatório. O ministro deu prazo de cinco dias para a Polícia Federal do Brasil “explicar” a acusação, como quem tenta remendar uma narrativa que já não se sustenta. É como alguém que tenta apagar uma tatuagem indesejada — só que, nesse caso, a marca é profunda e pública.
Durante meses, provas foram ignoradas, denúncias de irregularidades foram tratadas com descaso, e a defesa foi tratada como obstáculo, não como parte legítima do processo. Agora, com o escândalo vindo à tona, tenta-se reorganizar as peças como se tudo fosse apenas um mal-entendido.
Uma justiça que fecha os ouvidos
O que mais impressiona é a seletividade da reação. Quando a defesa apresentou documentos, nada foi feito. Quando surgiram denúncias de maus-tratos na prisão — como isolamento prolongado —, a resposta foi burocrática e morosa. Mas bastou uma nota estrangeira para provocar “perplexidade”. Não é isso que se espera de uma Corte Suprema: seletividade e conveniência não podem substituir imparcialidade.
Além disso, há sinais claros de irregularidades processuais: documentos inseridos fora do prazo legal, planilhas de registros internos de acesso ao Palácio da Alvorada com assinaturas duvidosas e informações contraditórias. Tudo isso pesa, e muito, sobre a credibilidade de quem conduziu o caso.
O que está em jogo vai além de um nome
Independentemente de preferências políticas, o que está em jogo aqui não é apenas o destino de Filipe Martins. É a confiança da sociedade na Justiça brasileira. Quando um ministro do STF se vê obrigado a correr para se desvincular de uma narrativa que ele mesmo ajudou a sustentar, algo está muito errado.
Um Estado democrático não pode funcionar com base em versões convenientes, mas em fatos — e, sobretudo, em responsabilidade institucional. Quando a verdade aparece, não basta fingir surpresa: é preciso assumir os erros e corrigir o rumo. Mas, infelizmente, não é isso que temos visto.
Essa “tatuagem” institucional não será fácil de apagar, porque ela revela uma verdade incômoda: a justiça, quando politizada, deixa de ser justiça. E enquanto isso não for enfrentado com seriedade, novos casos semelhantes continuarão surgindo, minando a confiança do povo nas instituições.