Um escândalo envolvendo profissionais de imprensa na Bahia voltou a ganhar repercussão nacional após a exibição de uma reportagem do Domingo Espetacular, da Record. De acordo com as investigações, jornalistas que deveriam ajudar famílias em situação de extrema vulnerabilidade teriam utilizado histórias de sofrimento para arrecadar doações — desviando a maior parte do dinheiro. O caso, que já se arrasta há quase dois anos no Judiciário baiano, teve mais um capítulo nesta semana com o adiamento do julgamento, aumentando a angústia das vítimas.
Esquema usava doações feitas durante reportagens
Durante transmissões ao vivo do programa Balanço Geral Bahia, um quadro dedicado a ações solidárias apresentava histórias de pessoas que enfrentavam doenças graves, limitações físicas e dificuldades financeiras. Porém, segundo as investigações, a chave Pix divulgada nas reportagens não pertencia às famílias, mas sim a integrantes do esquema.
A apuração interna da emissora e o inquérito policial apontam que o jornalista Marcelo Castro, o editor-chefe Jamerson Biriba, o operador Lucas Costa Santos e pelo menos nove laranjas teriam participado da fraude. O grupo é acusado de desviar cerca de 75% dos R$ 543 mil arrecadados, valor que deveria ter sido repassado integralmente aos beneficiários.
Famílias denunciam exposição forçada e manipulação
Entre as vítimas está Jucileide, mãe de Miguel, adolescente que sofria de leucodistrofia. A família precisava de uma cadeira de rodas adaptada. A reportagem exibida à época sensibilizou o público, e conseguiu arrecadar R$ 45 mil, mas a mãe recebeu apenas uma fração de R$ 10 mil.
“Eu me senti usada e violada”, relatou. O filho faleceu seis meses atrás, e a mãe ainda convive com o sentimento de que a ajuda que poderia ter dado mais dignidade aos últimos meses do jovem não chegou como deveria.
Outra mãe, Lucileide, conta que o filho, portador de hidrocefalia e má formação na coluna, foi orientado a “se arrastar no chão” para aumentar o impacto emocional da reportagem — algo que ela classificou como humilhante. Dos R$ 30 mil arrecadados, somente R$ 6 mil chegaram à família.
A vítima Maria de Fátima, que buscava ajuda para resolver questões previdenciárias do marido já falecido, recebeu apenas R$ 3 mil dos mais de R$ 27 mil doados.
A jovem Larissa, assaltada ao lado da filha autista, também denunciou impedimentos para divulgar sua própria chave Pix durante a transmissão ao vivo. Segundo ela, o repórter retirou o microfone ao perceber que ela diria o dado correto.
Laranjas confirmam participação, mas dizem ter sido enganados
A equipe do Domingo Espetacular localizou dois supostos laranjas em Salvador. Um deles confirmou ter emprestado a chave Pix, mas afirmou não ter sido informado sobre o destino das doações. Ambos evitaram comentar o caso após orientação de advogados.
Ações judiciais e demissão dos envolvidos
Assim que o esquema veio à tona, a Record Bahia demitiu Marcelo Castro e Jamerson Biriba por justa causa. O Ministério Público denunciou todo o grupo pelos crimes de apropriação indébita, lavagem de dinheiro e associação criminosa. A Justiça recebeu a denúncia e o processo está na fase de instrução.
Julgamento é adiado novamente
As audiências marcadas para este mês foram adiadas pela segunda vez. A justificativa do Tribunal de Justiça da Bahia foi a falta de espaço físico para acomodar todas as testemunhas e réus, cerca de 40 pessoas. Uma nova data foi marcada apenas para maio do próximo ano, aumentando a angústia das vítimas, que já esperam há quase dois anos.
Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que processos envolvendo interesse de crianças deveriam ter prioridade. Já o juiz responsável explicou que a demora se deve à logística e ao volume de pessoas convocadas.
Enquanto o caso não chega ao fim, as famílias seguem aguardando justiça e o reconhecimento de que suas histórias foram expostas de maneira indevida. Para Jucileide, a luta continua em memória do filho Miguel, que, segundo ela, poderia ter recebido cuidados melhores se o dinheiro doado pelos telespectadores tivesse sido repassado corretamente. “Não é sobre valores, é sobre justiça”, desabafou.