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Falando Sobre o Assunto

Brasil isola os EUA em evento da ONU e arrisca transformar diplomacia em espetáculo

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Imagine um governo organizar em Nova Iorque um grande encontro para discutir democracia e combate ao extremismo, mas sem convidar justamente os Estados Unidos, país anfitrião e maior democracia do planeta. Parece roteiro de sátira política, mas é exatamente o que o Brasil fará no próximo dia 24, ao lado de Chile, Espanha, Colômbia e Uruguai, durante a Assembleia Geral da ONU.

O gesto já nasceu carregado de simbolismo e de polêmica. Não foi esquecimento, não foi burocracia: foi uma escolha política deliberada, que divide opiniões e expõe contradições. O Brasil, que sempre buscou protagonismo como mediador global, agora prefere o papel de provocador.

Um recado direto em território americano

Ao excluir os EUA, o governo brasileiro envia uma mensagem inequívoca, e justamente em solo americano. É como organizar um congresso sobre liberdade religiosa no Vaticano e não chamar o Papa para participar. Diplomatas de várias partes do mundo já enxergam no gesto um ato de afronta, não de diálogo.

Em política externa, símbolos têm peso. O Brasil não apenas ignorou Washington, mas fez isso dentro da casa dos norte-americanos. Não se trata de mera formalidade: é uma ação que pode marcar anos de relações bilaterais.

Narrativa interna x realidade global

O Palácio do Planalto tenta justificar a exclusão alegando críticas recentes e sanções impostas ao Brasil. Mas a diplomacia, por natureza, é feita de tensões. O líder que almeja relevância global precisa saber administrar atritos, não evitá-los.

Na prática, o gesto atende muito mais à narrativa interna. Lula deve retornar ao Brasil apresentando-se como estadista que não se curva aos Estados Unidos. Para a militância, e a imprensa estatal paga com o dinheiro do pagador de impostos, o ato será celebrado como símbolo de soberania. Mas, no mundo real, soberania não se constrói com bravata. Ela depende de economia sólida, independência tecnológica, segurança nacional estruturada e alianças duradouras.

O risco do isolamento econômico

O gesto do dia 24 pode soar como teatro para uns, mas terá consequências concretas para outros. O agronegócio brasileiro, altamente dependente do mercado americano, pode sentir os primeiros impactos. Produtos como soja, carne bovina, etanol, café e suco de laranja encontram nos EUA um dos principais destinos de exportação.

Não seria a primeira vez que choques diplomáticos afetariam setores estratégicos. Disputas anteriores em torno do aço e barreiras tarifárias já custaram bilhões ao Brasil. Qualquer atrito adicional pode resultar em retaliações silenciosas, mas efetivas.

Dependência tecnológica e militar

Outro ponto delicado é a dependência brasileira em áreas de tecnologia e defesa. Desde softwares que movem sistemas públicos até satélites que monitoram nossas fronteiras, a ligação com empresas e instituições americanas é profunda. A cooperação com a NASA, vital para o agronegócio e para o monitoramento climático, é exemplo claro.

No campo da defesa, a relação é ainda mais evidente. Tropas brasileiras já treinaram com forças norte-americanas, equipamentos de segurança têm origem em indústrias dos EUA, e até no combate ao terrorismo houve cooperação. Ignorar essa realidade em nome de narrativa política é apostar em um paradoxo perigoso: excluir justamente o país que lidera a agenda de combate ao extremismo no mundo.

A incoerência da política externa

Talvez o ponto mais controverso seja a contradição do discurso. O governo fala em defender a democracia, mas mantém silêncio diante de regimes autoritários como China, Rússia e Irã. Não há demonstração de coragem em relação a países que censuram, perseguem opositores e violam direitos humanos. O alvo é sempre o mesmo: os Estados Unidos.

Essa seletividade revela uma fragilidade conceitual. O discurso contra Washington alimenta a narrativa ideológica, mas não traduz a prática de uma política externa pragmática.

Do prestígio à irrelevância?

O Brasil, historicamente, foi respeitado como voz moderada e capaz de dialogar com diferentes blocos. Ao optar pela provocação, corre o risco de perder justamente esse capital diplomático. Um país que poderia se posicionar como mediador global passa a ser visto como ator ideológico, diminuindo sua credibilidade.

No cenário internacional, quem abre mão do papel de conciliador acaba ficando à margem. A consequência pode ser um Brasil menos relevante e mais isolado.

O custo real da bravata

O grande problema é que a conta não cairá sobre quem discursar em Nova Iorque, mas sobre quem trabalha no Brasil. Agricultores, empresários, pesquisadores e jovens que sonham com intercâmbio e oportunidades nos Estados Unidos podem ser diretamente prejudicados por um clima de hostilidade.

A diplomacia não esquece. Cada gesto tem consequências, e cada isolamento traz custos. A exclusão de Washington do evento já nasce marcada como um ato de confronto.

Conclusão: teatro não sustenta soberania

O evento do dia 24 pode render aplausos de plateia e manchetes favoráveis da imprensa alinhada ao governo, mas dificilmente deixará saldo positivo para o Brasil. No fim, o país não sairá fortalecido, mas mais vulnerável.

Coragem verdadeira não é bater de frente com democracias, mas denunciar regimes que esmagam liberdades. Coragem é construir independência real — com economia robusta, tecnologia nacional e alianças sólidas.

O que veremos em Nova Iorque será apenas um espetáculo ideológico, feito para consumo interno. Mas quando as luzes se apagarem, restará a realidade: o Brasil ainda depende dos Estados Unidos em comércio, tecnologia e defesa. E quem pagará a conta dessa provocação não é o governo, mas o povo brasileiro.


A coluna Falando Sobre o Assunto com o jornalista Edivaldo Santos analisa e traz informações sobre tudo o que acontece nos bastidores do poder no Brasil e que podem influenciar nos rumos da política, da economia, do gospel e em tudo que acontece no Brasil e no mundo. Para envio de sugestões de pautas e reportagens, entre em contato com a nossa equipe pelo e-mail veja.aquiagora@hotmail.com.


 

Jornalista (CRP/BA 0006663/BA), radialista (DRT 5072/BA) e youtuber. Como jornalista já atua há 10 anos e atualmente é diretor de jornalismo do Portal Veja Aqui Agora . Desde 1984, atua no rádio, começando sua trajetória na Rádio Fundação Ide e Ensinai, em São Gonçalo dos Campos, na Bahia. Também trabalhou na Radio Cultura AM, Carioca AM, Betel FM, Cidade FM. Foi diretor da Comunidade FM, todas em Feira de Santana e atualmente trabalha na Rádio Elos, onde apresenta o Programa Bom Dia Felicidade, de segunda a sexta-feira, das 10h ao meio dia, também na mesma cidade. Também dirigiu a Rádio Shekiná FM em Vinhedo São Paulo e trabalhou como apresentador na Jerusalém FM na capital paulista. Como youtuber, administra os canais “Veja Aqui Agora News”, com mais de 160 mil assinantes e “Edivaldo Santos News” com mais de 15 mil assinantes. Para contato: vejaaqui.agora@hotmail.com

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