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Bahia: Pobreza, dependência e poder. Por que o mesmo projeto político permanece tão forte em um estado marcado por graves problemas sociais?

Pr. Luciano Gomes

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A força eleitoral de Lula e do PT na Bahia não pode ser explicada por uma única causa. Mas os dados revelam uma combinação que merece investigação: baixa autonomia econômica de muitos municípios, grande peso do poder público no mercado de trabalho, ampla cobertura de programas de transferência de renda, clientelismo historicamente estudado e episódios concretos de suspeita de coação eleitoral. A pergunta central é incômoda: até que ponto a dependência econômica do Estado ajuda a conservar estruturas de poder?

Uma pergunta que a eleição de 2026 recolocou no centro do debate

O resultado do primeiro turno da eleição presidencial de 2026 voltou a expor uma divisão política profunda no Brasil. No Nordeste, Luiz Inácio Lula da Silva obteve 63,77% dos votos válidos, contra 30,85% de Flávio Bolsonaro. Na Bahia, Lula alcançou 5.664.771 votos, equivalentes a 66,17% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro ficou com 28,53%. A vantagem baiana ultrapassou 3,2 milhões de votos.

Esse resultado não deve ser tratado com desprezo pelo eleitor nordestino, nem explicado por caricaturas. A questão séria é outra: por que um projeto político consegue manter tamanha força eleitoral em uma região que, ao mesmo tempo, convive com indicadores persistentes de pobreza, informalidade, analfabetismo, violência e baixa autonomia econômica municipal?

A Bahia é particularmente relevante para essa discussão. O PT chegou ao governo estadual em 2007, com Jaques Wagner, foi sucedido por Rui Costa e depois por Jerônimo Rodrigues. A continuidade política atravessa aproximadamente duas décadas. Isso torna legítima uma avaliação rigorosa dos resultados: o que efetivamente mudou, o que permaneceu estruturalmente ruim e por que a fidelidade eleitoral ao campo governista continua tão elevada?

Pobreza e dependência: o tamanho do problema

A primeira constatação é que muitos municípios baianos possuem reduzida autonomia econômica. O Índice Firjan de Gestão Fiscal mostrou que, entre 369 municípios baianos analisados, 329 — 89,2% — estavam em situação difícil ou crítica no indicador de autonomia. Em 156 municípios, a nota de autonomia foi zero. Na prática, isso indica localidades em que a atividade econômica não produz receita local suficiente nem para sustentar as despesas essenciais da estrutura administrativa.

Esse dado ajuda a compreender uma realidade conhecida no interior: em muitos municípios pequenos, a prefeitura não é apenas uma instituição política. Ela é um dos principais centros econômicos da cidade. Empregos, contratos temporários, cargos comissionados, serviços terceirizados, compras públicas e relações com fornecedores fazem do poder municipal um agente capaz de influenciar diretamente a sobrevivência econômica de muitas famílias.

Isso não autoriza afirmar que todo servidor público ou contratado vote por medo. Muito menos que toda prefeitura pratique coação. Mas cria uma pergunta legítima: quando existem poucas alternativas privadas de emprego, qual é o peso político de quem controla a principal estrutura empregadora do município?

O Estado como grande empregador

Os números do mercado formal ajudam a dimensionar essa questão. Dados oficiais da Bahia referentes a 2024 apontaram cerca de 2,77 milhões de vínculos formais no estado. A Administração Pública respondia por aproximadamente 675,9 mil vínculos — número superior ao da indústria de transformação e muito maior que o estoque formal da agropecuária.

É necessário cuidado metodológico: emprego público não é sinônimo de clientelismo. Professores concursados, policiais, profissionais de saúde e inúmeros outros servidores exercem funções indispensáveis e possuem proteção legal. O problema aparece quando contratos precários, nomeações discricionárias ou ameaças de demissão são utilizados como instrumentos de fidelização política.

Quando a dependência vira pressão eleitoral

Em 2026, um caso baiano tornou concreta essa discussão. O Ministério Público Eleitoral atuou em Érico Cardoso diante de suspeitas de coação de servidores municipais. Segundo o MP, manifestações atribuídas ao prefeito continham ameaça política a servidores, incluindo referências à possibilidade de demissão de quem não integrasse o grupo apoiado pela gestão. O caso foi levado à Justiça Eleitoral e não pode ser transformado, sem julgamento definitivo, em prova de culpa. Ainda assim, demonstra que o mecanismo descrito popularmente como pressão sobre o emprego público não é uma invenção abstrata: é uma conduta prevista e combatida pela legislação eleitoral.

A Constituição garante liberdade de consciência política. O voto é secreto. Utilizar cargo, contrato, emprego, benefício ou autoridade para constranger a escolha eleitoral é incompatível com uma democracia livre. Quando ocorre, não estamos diante de simples ‘articulação política’, mas de uma possível deformação da vontade do eleitor.

Bolsa Família: proteção social, efeito eleitoral e o risco das simplificações

A Bahia também possui uma das maiores coberturas do Bolsa Família. Em novembro de 2025, eram 2.311.287 famílias beneficiárias, reunindo 5.650.926 pessoas — 38,8% da população baiana. Naquele mês, os repasses somaram cerca de R$ 1,55 bilhão; de janeiro a novembro, aproximadamente R$ 17,58 bilhões.

Esses números revelam vulnerabilidade social em larga escala, mas não permitem chamar o programa de ‘compra de votos’. Transferência de renda é política pública prevista em lei e pode cumprir função essencial de combate à fome e à pobreza. O debate legítimo começa em outro ponto: políticas sociais produzem também efeitos políticos e eleitorais?

A literatura acadêmica brasileira responde que, em determinados períodos, sim. Estudos sobre a eleição de 2006 identificaram efeito eleitoral favorável a Lula associado ao Bolsa Família, especialmente em municípios mais pobres. Pesquisa específica sobre a Bahia encontrou efeito causal direto do programa sobre a votação presidencial petista naquele contexto, embora não tenha identificado o mesmo efeito direto sobre a disputa para governador.

Em 2026, um levantamento nacional do UOL cruzou votação presidencial, população municipal e presença do Bolsa Família. Nos municípios em que beneficiários correspondiam a pelo menos 50% da população, Lula obteve 68,7% dos votos válidos, contra 27,3% de Flávio Bolsonaro. É uma associação eleitoral muito forte. Contudo, o próprio levantamento não estabelece causalidade. Além disso, Lula havia obtido 71,5% nesse mesmo grupo em 2022: portanto, caiu, enquanto o campo bolsonarista avançou.

Essa queda é importante porque impede uma conclusão simplista. Beneficiário de programa social não é propriedade eleitoral de governo algum. O eleitor pode receber uma política pública e votar na oposição. O benefício deve ser compreendido como direito social sujeito a regras, e não como favor pessoal do governante.

A Bahia que produz riqueza e a Bahia que permanece vulnerável

Também seria incorreto retratar a Bahia como um estado sem produção privada ou sem agronegócio. O Oeste baiano é uma potência agrícola, com municípios ligados à produção de grãos, fibras e cadeias empresariais modernas. O agronegócio tem participação expressiva na economia e nas exportações do estado.

Esse contraste, porém, torna a investigação ainda mais relevante. A Bahia abriga polos altamente produtivos e, simultaneamente, centenas de municípios de baixa autonomia econômica. Na eleição de 2026, Lula perdeu força em áreas do Matopiba, região marcada pela presença do agronegócio. O dado não prova que ‘agronegócio produz voto de direita’, mas sugere que estrutura econômica, renda, mercado de trabalho e dependência do poder público merecem ser considerados na geografia eleitoral.

Emprego, informalidade e oportunidades

Os indicadores de trabalho reforçam a dimensão estrutural do problema. Em 2025, a Bahia registrou taxa anual de desemprego de 8,7%, subutilização da força de trabalho de 26,8% e informalidade de 52,8%, índices significativamente superiores à média brasileira. O rendimento médio habitual do trabalho também permaneceu entre os menores do país.

Quando a economia formal é limitada e a informalidade ultrapassa metade dos trabalhadores, o poder econômico de uma prefeitura, de um contrato público ou de um programa de renda assume importância ainda maior. Novamente, isso não prova voto coagido. Mas cria condições sociais nas quais patronagem, dependência e clientelismo podem encontrar terreno fértil.

Educação: um problema que atravessa gerações

A taxa de analfabetismo também permanece elevada. Dados da PNAD Contínua referentes a 2024 colocaram a Bahia em aproximadamente 10,8% de analfabetismo entre pessoas de 15 anos ou mais, contra cerca de 5,3% no Brasil. O Nordeste, como conjunto, também permaneceu muito acima da média nacional.

É injusto atribuir todo o analfabetismo adulto a um governo recente, porque o indicador carrega décadas de exclusão histórica. Entretanto, após longos períodos de continuidade administrativa, é legítimo perguntar qual velocidade de transformação educacional foi alcançada e por que a distância em relação aos estados com melhores indicadores continua tão grande.

Violência: talvez a contradição mais dolorosa

Na segurança pública, os números são particularmente graves. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025 registrou a Bahia com taxa de 40,6 mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes, entre as mais elevadas do país. Entre as dez cidades brasileiras com mais de 100 mil habitantes e maiores taxas de mortes violentas intencionais, cinco eram baianas: Jequié, Juazeiro, Camaçari, Simões Filho e Feira de Santana.

Seria falso dizer que nenhum governo tomou medidas. Houve investimentos, operações, expansão de inteligência, integração de forças e criação de estruturas como a Força Integrada de Combate ao Crime Organizado. A crítica mais consistente é outra: por que, apesar das políticas e dos recursos empregados, a Bahia permaneceu durante tanto tempo entre os estados com indicadores tão graves de violência?

Corrupção, Lula e a obrigação de precisão

O debate político também envolve a memória da Operação Lava Jato. Lula foi condenado criminalmente e teve condenações confirmadas em instâncias superiores. Posteriormente, essas condenações foram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal por questões de competência da 13ª Vara Federal de Curitiba; no caso do triplex, o STF também reconheceu a suspeição do então juiz Sergio Moro.

Portanto, duas afirmações precisam coexistir para que o debate seja intelectualmente honesto: Lula foi, de fato, condenado; e essas condenações foram posteriormente anuladas, de modo que não é correto apresentá-lo hoje como alguém que permanece condenado nesses processos. Anulação processual e absolvição de mérito não são conceitos idênticos, e transformar essa história complexa em slogans — de qualquer lado — empobrece a discussão.

PT, PCC e o chamado ‘diálogo cabuloso’

Outra controvérsia frequentemente mencionada é a interceptação em que um integrante do PCC afirmou existir um ‘diálogo cabuloso’ com o PT. A fala interceptada existiu e foi noticiada a partir de investigação policial. Entretanto, uma declaração de integrante de organização criminosa não equivale, sozinha, à prova judicial de uma parceria institucional entre um partido e o PCC.

É legítimo investigar relações de agentes públicos e partidos com organizações criminosas sempre que existirem indícios. O padrão probatório, contudo, precisa ser o mesmo para aliados e adversários: suspeita não é condenação; interceptação de terceiro não é automaticamente prova de acordo institucional; e acusações graves precisam ser sustentadas por evidências proporcionais à gravidade da acusação.

Por que o eleitor continua votando no mesmo campo político?

A resposta provavelmente não cabe em uma palavra como ‘assistencialismo’. Há pelo menos cinco dimensões que se sobrepõem: memória econômica dos primeiros governos Lula; identificação pessoal e simbólica com o ex-operário nordestino; programas de proteção social; redes políticas municipais e estaduais; e vulnerabilidade econômica que amplia o peso relativo do Estado na vida cotidiana.

Há ainda um componente psicológico. Eleitores não avaliam candidatos como juízes examinando um processo. Identidade partidária, religião, experiência econômica, rejeição ao adversário, confiança nas instituições e percepção sobre a imprensa moldam a interpretação dos fatos. Uma condenação pode ser lida por um eleitor como prova de corrupção e, por outro, como perseguição política. Esse mecanismo de raciocínio motivado existe tanto na esquerda quanto na direita.

Por isso, chamar milhões de eleitores de ignorantes não explica o fenômeno. É mais útil perguntar quais incentivos, memórias, medos, interesses e relações de dependência estruturam suas escolhas.

A hipótese do círculo de dependência

Os dados permitem formular uma hipótese que merece investigação permanente: municípios economicamente frágeis podem desenvolver maior dependência de transferências intergovernamentais, programas sociais e empregos públicos; essa dependência pode ampliar o poder de redes políticas locais; essas redes podem favorecer a permanência dos mesmos grupos no poder; e a ausência de transformação econômica suficientemente rápida pode reproduzir a própria dependência.

POBREZA → DEPENDÊNCIA → PODER POLÍTICO → CONTINUIDADE → DEPENDÊNCIA

É fundamental repetir: essa cadeia é uma hipótese explicativa, não uma causalidade já provada para todos os municípios baianos. A existência de correlações fortes não autoriza concluir que cada beneficiário, servidor ou morador pobre tenha seu voto determinado pelo Estado. Mas ignorar completamente a relação entre estrutura econômica e poder político seria igualmente pouco científico.

Assistência social não deve produzir submissão política

Uma sociedade democrática precisa proteger quem passa fome, quem está desempregado e quem vive em extrema pobreza. O problema não é ajudar o pobre. O problema surge quando a pobreza deixa de ser enfrentada como uma condição a ser superada e passa a funcionar como ambiente permanente de dependência.

O objetivo de uma política social saudável deve ser permitir que a família sobreviva hoje e conquiste autonomia amanhã: educação, qualificação, emprego, empreendedorismo, infraestrutura e crescimento econômico. Um programa social é mais bem-sucedido quando, além de proteger, ajuda a criar condições para que as novas gerações precisem cada vez menos dele.

Da mesma forma, emprego público deve servir ao Estado e à população, não ao grupo político que temporariamente ocupa o governo. Servidor concursado não deve temer sua opinião política. Contratado não deve ser coagido. Beneficiário social não deve sentir gratidão eleitoral obrigatória. O voto precisa permanecer livre.

Conclusão: a pergunta que a Bahia precisa enfrentar

A hegemonia eleitoral de Lula e de seus aliados na Bahia não pode ser explicada exclusivamente pelo Bolsa Família, pelos empregos municipais ou pelo clientelismo. Os próprios dados demonstram isso: Lula continua muito forte mesmo em municípios administrados por partidos diferentes, e sua votação caiu em 2026 inclusive nas localidades mais dependentes do programa social.

Entretanto, também seria ingênuo ignorar a estrutura econômica que cerca esse voto. A Bahia reúne ampla cobertura de transferência de renda, elevada informalidade, baixa autonomia fiscal em numerosos municípios, grande presença do poder público no emprego formal e episódios concretos investigados de pressão política sobre servidores. A literatura acadêmica, por sua vez, já encontrou efeitos eleitorais de programas de transferência de renda em eleições anteriores.

A questão, portanto, não deve ser ‘por que o pobre vota errado?’. A pergunta democrática é muito mais séria: por que, depois de tantos anos de continuidade política, parcelas tão grandes da população ainda permanecem em condições econômicas que as tornam profundamente dependentes do Estado?

E há uma segunda pergunta, igualmente necessária: governos que permanecem décadas no poder devem ser avaliados pela quantidade de pessoas que conseguem manter sob proteção estatal ou pela quantidade de pessoas que conseguem conduzir à autonomia econômica?

A Bahia não precisa abandonar a proteção social. Precisa superar a dependência. Precisa de políticas públicas que protejam os vulneráveis, mas também de educação eficiente, segurança, ambiente de negócios, emprego privado, empreendedorismo, indústria, agricultura competitiva e instituições locais em que ninguém tema perder o sustento por causa do voto.

Democracia verdadeira não é aquela em que o cidadão apenas tem o direito formal de votar. É aquela em que ele possui liberdade econômica, consciência e segurança suficientes para votar sem medo, sem favor e sem dependência.

Nota metodológica

Este artigo combina dados oficiais, levantamentos jornalísticos e literatura acadêmica. Correlação não significa causalidade. Os dados municipais agregados não permitem inferir o voto individual de beneficiários ou servidores. Denúncias e investigações são apresentadas como tais e não como condenações definitivas. Os resultados eleitorais de 2026 citados correspondem ao primeiro turno realizado em 4 de outubro.

O Pastor Luciano Gomes é um destacado líder religioso e estudioso da Bíblia, formado em Teologia pelo Seminário Teológico Evangélico Betel Brasileiro, em Cruz das Almas/BA. Ele é o criador do Grupo Crescimento Espiritual no Facebook e do blog "Crescimento Espiritual" (https://lgcrescimentoespiritual.blogspot.com), onde compartilha seus conhecimentos e reflexões sobre estudos bíblicos, mensagens e temas relevantes para a vida cristã contemporânea. Com uma abordagem interdisciplinar, o Pastor Luciano Gomes aborda temas como família, fé, ética, missões, evangelismo, discipulado, liderança, igreja e sociedade, oferecendo uma perspectiva profunda e inspiradora para os cristãos do século XXI.

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