O Brasil chega às eleições de 2026 mergulhado em uma das atmosferas políticas mais tensas dos últimos anos. Falar de política tornou-se quase como caminhar sobre um campo minado. De um lado, a esquerda; do outro, a direita. No meio dessa disputa, milhões de brasileiros que precisam trabalhar, sustentar suas famílias, enfrentar a violência, procurar atendimento médico e colocar seus filhos na escola.
No próximo 4 de outubro, 158,7 milhões de eleitores estarão aptos a participar do primeiro turno das eleições gerais. É nesse momento que precisamos compreender uma coisa fundamental: o voto não pode ser tratado como torcida organizada.
Político não deve ser objeto de devoção. Deve ser fiscalizado.
A Bahia precisa olhar para os seus resultados
É impossível discutir as eleições na Bahia sem falar de segurança pública.
Os números mais recentes são preocupantes. Dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, referentes a 2025, colocam a Bahia com taxa de 36,8 mortes violentas intencionais para cada 100 mil habitantes, a segunda maior entre os estados brasileiros. Mais grave ainda: cinco municípios baianos aparecem entre os dez mais violentos do país — Eunápolis, Porto Seguro, Simões Filho, Jequié e Juazeiro.
É preciso reconhecer também o outro lado dos números: houve redução da violência. Segundo a Secretaria da Segurança Pública da Bahia, o estado contabilizou 3.884 ocorrências de homicídio, latrocínio e lesão dolosa seguida de morte em 2025, uma redução de 13,1% em relação ao ano anterior.
Reconhecer uma melhora não significa ignorar a gravidade do problema.
Depois de tantos anos de continuidade de um mesmo grupo político no governo estadual, a segurança pública oferecida ao cidadão baiano é satisfatória?
A resposta deve vir dos resultados e da experiência cotidiana da população, e não simplesmente da preferência partidária.
Educação também precisa entrar na urna
Na educação, novamente precisamos fugir dos discursos fáceis.
A Bahia avançou no Ideb. Os dados divulgados pelo Inep em 2026 mostram que, entre 2023 e 2025, o Ideb do ensino médio baiano passou de 3,9 para 4,0; considerando especificamente a rede pública, passou de 3,7 para 3,8. Houve avanço, portanto, e isso precisa ser reconhecido.
Mas reconhecer avanço não significa considerar o problema resolvido.
Um índice de 3,8 no ensino médio público continua exigindo profunda reflexão sobre aprendizagem, permanência escolar, preparação profissional e perspectivas oferecidas aos jovens baianos.
É isso que deveria ocupar o debate eleitoral.
Assistência social é necessária; dependência permanente não pode ser projeto de desenvolvimento
Existe ainda um assunto delicado que precisa ser discutido sem preconceito contra os pobres.
A Bahia possui aproximadamente 2,3 milhões de famílias atendidas pelo Bolsa Família, uma dimensão que revela tanto a importância da proteção social quanto o tamanho da vulnerabilidade econômica existente no estado.
O Bolsa Família é importante para quem precisa dele. Uma família com fome não pode esperar o crescimento econômico chegar para colocar comida na mesa.
Portanto, atacar quem recebe benefício social seria injusto.
Por quanto tempo milhões de famílias precisarão depender da transferência de renda para garantir condições básicas de sobrevivência?
Uma política social responsável precisa proteger quem está vulnerável, mas um projeto de desenvolvimento precisa oferecer também a possibilidade de saída dessa vulnerabilidade: emprego, qualificação profissional, educação de qualidade, empreendedorismo, infraestrutura e crescimento econômico.
O objetivo de uma política pública não deveria ser eternizar a dependência, mas criar condições para que, quando possível, o cidadão conquiste autonomia.
E é justamente por isso que também devemos ter cuidado com uma conclusão muito comum em períodos eleitorais: não podemos afirmar automaticamente que alguém vota em determinado partido simplesmente porque recebe Bolsa Família. Benefício social e comportamento eleitoral podem estar relacionados em determinados contextos, mas estabelecer que um seja necessariamente a causa do outro exige evidências.
O pobre não pode ser tratado como eleitor sem consciência.
Ele também precisa ser convencido por propostas, resultados e perspectivas.
E as instituições?
Outra questão inevitável neste momento brasileiro diz respeito ao relacionamento entre política, Justiça e instituições.
A Constituição é clara: compete ao Supremo Tribunal Federal, precipuamente, a guarda da Constituição. Também estabelece que os ministros da Corte são escolhidos pelo presidente da República e precisam ser aprovados pela maioria absoluta do Senado Federal.
Por isso, discutir os limites do STF, decisões individuais de ministros, ativismo judicial, autocontenção e equilíbrio entre os Poderes não deveria ser considerado um ataque à democracia.
Pelo contrário: instituições democráticas também precisam estar abertas à crítica.
Mas existe uma diferença fundamental entre criticar decisões concretas e simplesmente declarar que toda uma instituição pertence à esquerda ou à direita.
Se queremos cobrar imparcialidade das instituições, precisamos aplicar o mesmo princípio às nossas próprias análises.
Nenhum Poder da República deveria estar acima da Constituição. Executivo, Legislativo e Judiciário precisam atuar dentro dos limites constitucionais e ser submetidos ao escrutínio público próprio de uma democracia.
A polarização está nos impedindo de fazer as perguntas certas
Talvez este seja um dos maiores problemas da política brasileira atual.
Enquanto parte do país pergunta “você é Lula ou Bolsonaro?”, deveríamos estar perguntando:
- Qual é o projeto para o Brasil?
- Como reduzir a criminalidade?
- Como melhorar a escola pública?
- Como diminuir a espera por atendimento no SUS?
- Como gerar emprego?
- Como fazer o Nordeste crescer economicamente sem depender permanentemente de transferências governamentais?
- Como combater a corrupção independentemente do partido envolvido?
- Como garantir liberdade de expressão sem transformar liberdade em licença para cometer crimes?
- Como preservar a independência entre Executivo, Legislativo e Judiciário?
Essas perguntas são maiores que qualquer político.
A disputa pela Bahia está aberta
A própria eleição baiana demonstra que o eleitorado está dividido. Pesquisa RealTime Big Data realizada entre 4 e 8 de setembro aponta empate técnico entre Jerônimo Rodrigues e ACM Neto na disputa pelo governo estadual. Outro levantamento recente, do AtlasIntel/A Tarde, também encontrou empate técnico.
Isso aumenta ainda mais a responsabilidade do eleitor.
Não basta perguntar quem é de esquerda ou quem é de direita.
É necessário comparar governos, propostas, equipes, histórico, capacidade administrativa e, principalmente, resultados.
O voto não pertence ao político
No dia 4 de outubro, durante alguns segundos diante da urna, o poder muda de mãos.
Não estará com o presidente.
Não estará com o governador.
Não estará com deputado, senador, ministro ou partido.
Estará com o cidadão.
É justamente por isso que nenhuma cesta básica, benefício social, promessa, amizade, paixão ideológica, liderança religiosa ou identificação partidária deveria substituir a consciência.
Vote em quem você quiser.
Na esquerda, na direita ou no centro.
Mas saiba por que está votando.
Compare propostas. Examine o passado. Observe os resultados. Pergunte quem financiou a campanha. Veja com quem o candidato está aliado. Analise aquilo que ele prometeu anteriormente e aquilo que efetivamente entregou.
E, principalmente, não entregue sua consciência a político algum.
Porque governos passam. Partidos passam. Presidentes, governadores, senadores e deputados passam.
Mas as consequências de uma escolha eleitoral permanecem na vida do povo durante anos.
Em uma democracia, o voto é um direito.
Mas o voto consciente é também uma responsabilidade.
E talvez seja exatamente disso que a Bahia e o Brasil mais estejam precisando neste momento: menos paixão por políticos e mais compromisso com o futuro.
Fontes consultadas
- Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — Eleições 2026 e calendário eleitoral.
- 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública — dados referentes a 2025.
- Secretaria da Segurança Pública da Bahia — balanço de mortes violentas em 2025.
- Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) — Ideb da Bahia.
- Governo da Bahia / SEADES — dados do Bolsa Família.
- Constituição Federal de 1988 — competências e composição do Supremo Tribunal Federal.
- Levantamentos RealTime Big Data e AtlasIntel/A Tarde — cenário eleitoral baiano em setembro de 2026.