Documentos divulgados pelo Supremo Tribunal Federal revelam que o procurador-geral da República, Paulo Gonet, concordou com a realização da operação de busca e apreensão contra o senador Jaques Wagner (PT-BA), mas se posicionou contra a apreensão de dinheiro em espécie e bens considerados de alto valor.
A manifestação foi apresentada antes da operação realizada pela Polícia Federal em 18 de junho. Apesar do entendimento da Procuradoria-Geral da República, o ministro André Mendonça, relator da investigação no STF, autorizou integralmente o pedido formulado pelos investigadores.
Os documentos contendo o parecer da PGR, a decisão do ministro e o relatório da Polícia Federal foram tornados públicos por determinação do próprio Supremo.
Gonet considerou medida excessiva e antecipada
No parecer encaminhado ao STF, Paulo Gonet sustentou que a simples existência de objetos de luxo ou de grandes quantias em dinheiro não caracteriza, por si só, a prática de crime.
Segundo o procurador-geral, a apreensão desses bens extrapolaria a finalidade da busca e apreensão e representaria uma intervenção mais invasiva do que o necessário para a investigação. Ele também avaliou que a medida seria prematura naquele estágio do processo.
Outro ponto destacado por Gonet foi o possível impacto público da apreensão de itens de luxo, afirmando que isso poderia provocar ampla repercussão sem necessidade, ampliando os efeitos da investigação sobre os direitos do investigado.
STF autorizou apreensão de dinheiro e bens de alto valor
Mesmo diante da manifestação da PGR, André Mendonça autorizou que a Polícia Federal recolhesse valores em espécie superiores a R$ 20 mil, além de joias, obras de arte, veículos, aeronaves e outros bens de elevado valor eventualmente encontrados durante as buscas.
A operação terminou com a apreensão de 13 relógios de luxo e aproximadamente R$ 479 mil em espécie, entre dólares, euros e reais, localizados em um hotel de Brasília e em um apartamento ligado ao senador em Salvador.
Em análise inicial, investigadores apontaram que alguns relógios seriam de marcas de alto padrão, como Patek Philippe, Cartier e Hublot, com valores que podem alcançar centenas de milhares de reais. A defesa de Jaques Wagner informou que entre os objetos existem peças originais e réplicas, sem detalhar quais seriam.
Pedido de audiência levantou suspeitas durante investigação
A decisão de André Mendonça também registra um episódio considerado relevante pelos investigadores.
No mesmo dia em que a Polícia Federal encaminhou ao STF o pedido para realizar a operação, Jaques Wagner solicitou uma audiência com o ministro. Para o relator, esse fato aumentou a preocupação com um possível vazamento de informações sigilosas da investigação.
Segundo os autos, o objetivo do encontro seria apresentar esclarecimentos sobre a relação do senador com o banqueiro Daniel Vorcaro e com o ex-sócio do Banco Master Augusto Lima.
Ainda naquele dia, um vídeo registrou uma conversa reservada entre Jaques Wagner e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, durante um evento no Palácio do Planalto. Dias depois, em 18 de junho, a operação foi deflagrada. Em 24 de junho, o parlamentar deixou a liderança do governo no Senado após conversar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Investigação também apura negociação de apartamento de luxo
As investigações da Polícia Federal também identificaram documentos e mensagens que apontam a continuidade das negociações envolvendo um apartamento de luxo avaliado em aproximadamente R$ 2,5 milhões, mesmo após a primeira fase da Operação Compliance Zero, realizada em novembro de 2025.
O imóvel, localizado no empreendimento Poème Horto, no bairro Horto Florestal, em Salvador, teria sido adquirido por Augusto Lima utilizando uma estrutura de fundos de investimento ligados ao Banco Master e a empresas e pessoas investigadas no caso.
Segundo a PF, os investigadores identificaram estratégias que buscariam ocultar a origem da negociação do imóvel, utilizando métodos semelhantes aos encontrados em outras frentes da investigação relacionadas ao Banco Master.
Senador afirma que provará inocência
Procurada durante a apuração, a defesa e a assessoria de Jaques Wagner não apresentaram manifestação.
Posteriormente, em entrevista concedida à Rádio Baiana FM, o senador declarou estar tranquilo diante das investigações e afirmou confiar no trabalho das instituições.
Segundo Wagner, cabe à Polícia Federal investigar, ao Ministério Público analisar os fatos e ao Poder Judiciário realizar o julgamento. O parlamentar declarou que tem convicção de que conseguirá comprovar sua inocência.