A possibilidade de o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), conquistar a reeleição ainda no primeiro turno passou a ocupar o centro das análises políticas da eleição de 2026. O cenário ganhou força após a divulgação da mais recente pesquisa Datafolha, que aponta o governador com 52% dos votos válidos, percentual suficiente para encerrar a disputa já na primeira etapa.
Nos bastidores da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a hipótese é vista com preocupação. Entre aliados do senador Flávio Bolsonaro (PL), por outro lado, cresce a expectativa de que uma vitória rápida de Tarcísio fortaleça o campo conservador e permita ao governador dedicar mais tempo à campanha presidencial.
Estratégia de Flávio Bolsonaro aposta em aproximação com Tarcísio
Aliados do senador afirmam que a transferência do comitê de campanha para a capital paulista, prevista para as próximas semanas, deverá ampliar a presença conjunta de Flávio e Tarcísio em eventos políticos.
Até agora, os dois mantiveram poucas agendas públicas em conjunto, situação que gerou especulações sobre um distanciamento político. A expectativa do grupo de Flávio é que essa aproximação se intensifique durante a campanha eleitoral.
São Paulo pode ser decisivo para a eleição presidencial
Especialistas avaliam que uma definição antecipada da disputa pelo Palácio dos Bandeirantes poderia beneficiar a candidatura presidencial apoiada pelo governador, desde que ele participe ativamente da campanha nacional.
O histórico eleitoral reforça essa discussão. Em 2014, quando a eleição para o governo paulista foi resolvida no primeiro turno com a reeleição de Geraldo Alckmin, o então candidato à Presidência Aécio Neves ampliou significativamente sua votação no estado durante o segundo turno.
Já em 2018, embora tenha havido segundo turno para o governo estadual, a aliança entre Jair Bolsonaro e João Doria contribuiu para o crescimento da votação do então candidato tucano.
Em 2022, mesmo derrotado por Tarcísio na disputa estadual, Fernando Haddad teve desempenho considerado importante para reduzir a vantagem de Jair Bolsonaro em São Paulo e colaborar com a vitória nacional de Lula.
PT aposta em equipe de ex-ministros para repetir desempenho de 2022
A estratégia da campanha petista inclui a formação de uma chapa composta por quatro ex-ministros: Fernando Haddad, Márcio França, Simone Tebet e Marina Silva.
Além disso, Geraldo Alckmin deverá concentrar esforços no interior paulista, região onde o PT tradicionalmente enfrenta maior resistência eleitoral. Também está previsto que Lula mantenha presença frequente em São Paulo durante a campanha, incluindo a realização da convenção nacional da candidatura no estado.
Apesar desses planos, os números mais recentes indicam dificuldades para repetir o desempenho obtido há quatro anos. Segundo o levantamento Datafolha, Haddad aparece com 34% dos votos válidos, índice semelhante ao registrado no primeiro turno de 2022, enquanto Tarcísio amplia sua vantagem em relação ao resultado da eleição anterior.
Aliados de Flávio veem oportunidade de ampliar campanha nacional
No entorno do senador, a avaliação é de que uma vitória de Tarcísio ainda no primeiro turno abriria espaço para uma atuação mais intensa do governador na eleição presidencial.
Entre as possibilidades consideradas estão viagens pelo país, participação em comícios, gravações para programas eleitorais e mobilização de prefeitos, parlamentares e lideranças políticas em favor da candidatura de Flávio Bolsonaro.
Além do apoio direto, uma vitória expressiva em São Paulo também poderia ser utilizada como argumento político para demonstrar a força eleitoral da direita.
Petistas acreditam que Tarcísio pode limitar envolvimento
Na avaliação de integrantes da campanha de Lula, o favoritismo de Tarcísio para permanecer no governo paulista pode produzir um efeito diferente.
Segundo essa leitura, o governador teria interesse em preservar sua imagem política, evitando envolvimento intenso nas disputas nacionais e mantendo foco na administração estadual.
Integrantes de partidos de centro compartilham análise semelhante. Para esses interlocutores, de olho nas eleições presidenciais de 2030, Tarcísio poderia optar por oferecer apenas um apoio institucional à candidatura de Flávio, sem dedicar grande parte de sua agenda à campanha.
Cientistas políticos divergem sobre impacto eleitoral
Especialistas ouvidos apresentam interpretações distintas sobre os possíveis efeitos de uma vitória de Tarcísio no primeiro turno.
Para Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, o cenário representa um desafio para o governo Lula, mas o benefício para Flávio dependeria de uma participação explícita do governador desde o início da campanha.
Rodrigo Prando, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, avalia que uma reeleição expressiva de Tarcísio poderia fortalecer a narrativa política de Flávio Bolsonaro durante um eventual segundo turno presidencial.
Já Marco Antonio Teixeira, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), pondera que uma definição antecipada da disputa paulista não garante transferência automática de votos. Segundo ele, a ausência de segundo turno pode até reduzir a mobilização de prefeitos, candidatos e lideranças conservadoras, diminuindo o esforço eleitoral no estado.
Cenário permanece aberto
Embora as pesquisas indiquem vantagem para Tarcísio de Freitas, analistas destacam que o impacto desse resultado sobre a disputa presidencial dependerá principalmente do nível de envolvimento do governador na campanha nacional.
Assim, caso a eleição paulista seja encerrada no primeiro turno, a principal questão deixará de ser a vitória estadual e passará a ser o papel que Tarcísio decidirá desempenhar na corrida pelo Palácio do Planalto.