Há passagens na Bíblia que nos mostram a face amorosa e compassiva de Jesus, mas também há momentos em que Ele se mostra firme, reto e, podemos dizer, profundamente indignado com a postura humana diante de Deus. Um desses momentos está registrado no capítulo 6 do Evangelho de João, um texto que nos ensina muito sobre o que realmente buscamos e o que, de fato, valorizamos nas pessoas e em Deus.
A história começa com um dos milagres mais conhecidos: a multiplicação de cinco pães e dois peixes, onde Jesus alimentou uma multidão imensa — estima-se que entre homens, mulheres e crianças, fossem mais de 30 mil pessoas. Todos comeram, todos se saciaram, e todos viram ali um sinal grandioso do poder de Deus. No dia seguinte, essa mesma multidão sai à procura de Jesus, o encontra e demonstra grande admiração. Mas ao invés de receber elogios, eles ouvem d’Ele uma palavra dura, verdadeira e cheia de reprovação:
“Em verdade, em verdade vos digo: vocês me procuram não porque viram os sinais, mas porque comeram dos pães e ficaram satisfeitos.” (João 6:26)
Jesus estava chateado. Jesus se indignou. Ele reclamou abertamente da postura daquelas pessoas. Ele percebeu claramente o motivo da busca: eles não O seguiam porque reconheciam n’Ele o Filho de Deus, a Verdade ou a Vida. Eles O procuravam apenas por interesse, apenas por conveniência. Queriam o milagre, queriam a cura, queriam o alimento, queriam a solução para suas necessidades terrenas e materiais. Queriam o que Ele podia oferecer, mas não estavam dispostos a conhecer e aceitar quem Ele realmente era.
Quando Jesus começa a ensinar quem Ele é de fato — “Eu sou o Pão da Vida que desceu do Céu” — muitos se afastam, murmuram e vão embora. Dizem que o seu discurso é duro, difícil de aceitar. Por quê? Porque a mensagem que Ele trouxe não era um catálogo de benefícios imediatos e fáceis. Jesus veio trazer as Boas Novas do Reino, que envolvem salvação, transformação, direção e vida eterna, mas não uma vida sem luta, sem esforço ou sem responsabilidade.
Deus, quando criou o ser humano, o fez à Sua imagem e semelhança, dotando-o de inteligência, capacidade, livre arbítrio e sabedoria. Deus nos deu condições de lutar, trabalhar, conquistar e construir a nossa própria história. Ele nos deu o poder e a capacidade, mas não entrega tudo pronto, caindo do céu, sem que haja por parte do ser humano o uso dos dons que recebeu.
Infelizmente, o comportamento que indignou Jesus naquele tempo é o mesmo que vemos repetido na nossa sociedade e até nos nossos relacionamentos nos dias de hoje. É uma realidade dolorosa, mas muito comum: as pessoas nos aceitam, nos procuram, nos dão valor e nos bajulam, não por quem somos, mas exclusivamente por aquilo que podemos oferecer.
Quantas vezes percebemos que somos lembrados, convidados ou queridos apenas porque temos algo a dar? Seja por possuir bens, dinheiro, posição social, status, poder, idade, influência ou porque estamos no auge de alguma conquista. Enquanto temos o que oferecer, somos importantes, elogiados e rodeados. Mas quando a situação muda, quando os recursos acabam, quando a saúde vai embora, quando o status diminui ou quando já não temos o que “dar”, muitos se afastam, o interesse acaba e o valor que nos davam desaparece completamente.
Isso prova que o amor e a admiração não eram direcionados à nossa essência, ao nosso caráter, à nossa alma ou ao que somos de verdade. Eram direcionados apenas ao que tínhamos ou ao que representávamos de vantajoso para o outro.
Foi exatamente isso que doeu no coração de Jesus. Ele é o Rei dos Reis, o Santo de Deus, a fonte da vida — e as pessoas O viam apenas como um distribuidor de favores e soluções temporárias. Por isso Ele rejeitou essa busca interesseira e apresentou a realidade: “Eu sou o Pão da Vida”. Não venha a Mim apenas por uma necessidade passageira; venha a Mim porque em Mim está a vida que não acaba.
Diante da rejeição de muitos, Jesus olha para os seus discípulos e pergunta: “Vocês também querem ir embora?”
E aí vem a resposta que define a diferença entre quem busca benefícios e quem busca a essência. Pedro, com toda a sua simplicidade e fé, responde:
“Senhor, para onde iremos? Tu tens as palavras da vida eterna. E nós temos crido e conhecido que tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.” (João 6:68-69)
Pedro não tinha nada a ganhar materialmente ao seguir Jesus. Pelo contrário, sabia que seguir-Lhe os passos traria desafios. Mas ele ficou porque compreendeu o que realmente importa: o valor está na Pessoa, não no proveito que se pode tirar dela.
Que possamos aprender com essa lição. Que possamos buscar a Deus por quem Ele é — Santo, Amor, Verdade e Vida — e não apenas para resolver os nossos problemas terrenos. E que nos nossos relacionamentos, sejamos pessoas que valorizam o outro pela sua essência, pelo seu coração, pelo seu ser, independentemente do que ele tem, do que ele pode oferecer ou da posição que ele ocupa.
Porque o que temos passa, o que conquistamos acaba, o status muda, a saúde vai e vem… mas a nossa essência, o que somos diante de Deus e do próximo, é o que permanece para sempre.