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Quando o Supremo vira pauta — e não exemplo

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Há algo de profundamente simbólico — e constrangedor — no fato de o Supremo Tribunal Federal, guardião da Constituição, sentir-se obrigado a publicar notas oficiais para explicar o comportamento de seus próprios ministros. Quando a mais alta Corte do país passa mais tempo se defendendo do que julgando, o problema já não é de comunicação: é de credibilidade.

Durante anos, dois ministros foram alçados a personagens quase mitológicos do debate político nacional. Um ganhou a alcunha de algoz da Lava Jato e até conseguiu acabar de uma vez por todas, com a Operação; o outro, de carrasco do bolsonarismo. Esse, chegou até prender bolsonaristas e até mesmo o próprio Bolsonaro. Para uns, heróis. Para outros, vilões.

Enquanto o Supremo tenta explicar o inexplicável, o ministro Alexandre de Moraes nunca explicou o contrato de R$ 129 milhões da sua esposa Viviane Barci de Moraes, com o Banco Master, do banqueiro Daniel Vorcaro. O ministro Dias Toffoli, também nunca veio a público para  explicar sobre um resort luxuoso, com cassino com máquinas, algumas delas, proibidas no Brasil.

Como que não bastasse, o curioso é que, agora, ambos parecem unidos não por convicções jurídicas, mas por algo bem mais eficiente: o poder de acelerar o desgaste da imagem do próprio Supremo.

O resultado está aí. Um STF acuado, reativo, nervoso. Um tribunal que antes falava por meio de decisões históricas, hoje fala por meio de desmentidos. Não é exatamente o tipo de protagonismo que inspira respeito institucional.

O Planalto, como bom observador de crises alheias, assistiu tudo de camarote por um tempo. Afinal, nada mais confortável do que ver outros poderes tropeçando enquanto você finge neutralidade. O problema é que escândalos, quando crescem, não respeitam tapetes nem elevadores privativos. Sobem rampas. Chegam ao terceiro andar. E quando isso acontece, o silêncio deixa de ser estratégico e passa a ser cúmplice aos olhos da opinião pública.

Mas reduzir tudo a uma disputa de narrativas eleitorais — quem lucra mais, quem perde menos — é tratar o sintoma e ignorar a doença. O que está em jogo aqui é algo muito mais antigo, profundo e estrutural: o patrimonialismo brasileiro em sua versão de luxo, com toga, gabinete climatizado e discurso institucional.

É a velha prática de transformar o Estado em extensão de interesses privados. De usar cofres públicos, influência política e estruturas oficiais como se fossem patrimônio pessoal ou ferramentas de proteção de grupos específicos. Nada exatamente novo no Brasil, é verdade. A novidade é o descaramento. A velocidade. A ausência total de pudor.

Vivemos tempos tão curiosos que até o cinismo parece ter perdido o medo de ser flagrado. A sensação é a de que já vimos de tudo — mensalão, petrolão, Toffolão, orçamentos secretos, rachadinhas, conchavos de toda ordem — e, ainda assim, o sistema sempre encontra uma forma inédita de se superar no quesito “isso nunca aconteceu antes”.

O mais grave não é apenas o escândalo em si, mas o que ele revela: instituições que deveriam ser âncoras morais do país comportando-se como atores comuns do jogo político, disputando poder, narrativa e influência. Quando isso acontece, o cidadão comum fica com a pior parte do negócio: a descrença.

No fim das contas, talvez o maior dano não seja a quem vai ganhar ou perder a próxima eleição, mas à ideia — já combalida — de que ainda existem limites, freios e alguma decência institucional neste país. Quando o Supremo deixa de ser referência e passa a ser assunto, algo está profundamente errado.

E não adianta soltar nota. Nota não restaura confiança. Justiça coerente, discreta e impessoal talvez restaurasse. Mas isso, ao que tudo indica, anda fora de moda.

Jornalista (CRP/BA 0006663/BA), radialista (DRT 5072/BA) e youtuber. Como jornalista já atua há 10 anos e atualmente é diretor de jornalismo do Portal Veja Aqui Agora . Desde 1984, atua no rádio, começando sua trajetória na Rádio Fundação Ide e Ensinai, em São Gonçalo dos Campos, na Bahia. Também trabalhou na Radio Cultura AM, Carioca AM, Betel FM, Cidade FM. Foi diretor da Comunidade FM, todas em Feira de Santana e atualmente trabalha na Rádio Elos, onde apresenta o Programa Bom Dia Felicidade, de segunda a sexta-feira, das 10h ao meio dia, também na mesma cidade. Também dirigiu a Rádio Shekiná FM em Vinhedo São Paulo e trabalhou como apresentador na Jerusalém FM na capital paulista. Como youtuber, administra os canais “Veja Aqui Agora News”, com mais de 160 mil assinantes e “Edivaldo Santos News” com mais de 15 mil assinantes. Para contato: vejaaqui.agora@hotmail.com

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