Empresas vinculadas a parentes do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli tiveram, em sua estrutura societária, um fundo de investimentos conectado à rede financeira apontada pelo Banco Central como parte do esquema de fraudes envolvendo o Banco Master. As informações foram reveladas pela Folha de S.Paulo e envolvem uma complexa cadeia de fundos administrados por uma mesma gestora.
O Arleen Fundo de Investimentos manteve, até pelo menos maio de 2025, participação acionária em duas empresas relacionadas a familiares de Dias Toffoli. Uma delas é a Tayayá Administração e Participações, responsável por um resort localizado em Ribeirão Claro, no Paraná. A outra é a DGEP Empreendimentos, incorporadora da mesma cidade que teve como sócio um primo do ministro.
A conexão com o caso do Banco Master ocorre por meio de uma sequência de fundos. O Arleen figurava como cotista do RWM Plus, que por sua vez recebeu recursos de fundos associados ao Maia 95 — apontado pelo Banco Central como integrante da estrutura utilizada para fraudes atribuídas ao banco comandado por Daniel Vorcaro. Apesar dessa ligação indireta, o Arleen não é alvo formal de investigação.
Todos esses fundos, incluindo os envolvidos nessa cadeia, eram administrados pela Reag, empresa que também gerenciava fundos ligados a Vorcaro. A Reag é investigada na operação Carbono Oculto, que apura suspeitas de lavagem de dinheiro para a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC).
O Arleen possuía apenas um cotista e foi encerrado no final do ano passado, mesmo tendo prazo original de duração de 20 anos. De acordo com balanço de maio de 2025, o fundo mantinha quatro aplicações: duas empresas ligadas à família Toffoli, uma holding sem registro público e o fundo RWM Plus.
Investigadores afirmam que a rede de fundos administrados pela Reag era usada para movimentar recursos emprestados pelo Banco Master, por meio da aquisição de ativos de baixo valor com o objetivo de inflar artificialmente o patrimônio. A Polícia Federal e o Banco Central seguem apurando esse mecanismo.
Paralelamente, Dias Toffoli atua como relator do inquérito que investiga as fraudes do Banco Master no STF. Ele assumiu o caso em dezembro, após recurso apresentado pela defesa de Vorcaro, manteve o processo sob sigilo e determinou a realização de uma acareação com um diretor do Banco Central.
No âmbito empresarial, o resort Tayayá contou, ao longo dos anos, com participação de familiares do ministro. Em 2017, Toffoli recebeu uma homenagem da Câmara Municipal de Ribeirão Claro por sua contribuição ao desenvolvimento turístico do município, relacionada à implantação do empreendimento. Em 2020, a empresa era controlada por um primo do ministro e por um advogado, e, naquele mesmo ano, uma empresa pertencente aos irmãos de Toffoli ingressou na sociedade. A composição acionária sofreu alterações nos anos seguintes.
O caso evidencia a interligação entre fundos de investimento, empresas privadas e investigações financeiras de grande escala envolvendo o Banco Master. Embora não haja, até o momento, investigação direta contra o fundo Arleen ou contra familiares do ministro Dias Toffoli, as conexões reveladas levantam questionamentos relevantes sobre governança, transparência e conflitos de interesse, especialmente diante do papel do magistrado como relator do inquérito no Supremo Tribunal Federal.