Há histórias que desafiam a lógica, a aritmética e, principalmente, a inteligência do leitor. A do contrato de R$ 130 milhões envolvendo o escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes é uma delas. Não porque contratos vultosos não existam no mundo jurídico — eles existem, aos montes —, mas porque a narrativa que se tenta construir em torno desse episódio exige um nível de ingenuidade quase comovente.
Comecemos pelo básico: alguém acredita, sinceramente, que em um casamento estável, harmônico e funcional, uma esposa advogada fecha um contrato de R$ 130 milhões e simplesmente não comenta nada sobre isso com o marido? E não é qualquer marido. Estamos falando de um ministro do Supremo Tribunal Federal, jurista experiente, advogado de carreira, alguém que entende — talvez melhor do que a maioria — o que significa um contrato dessa magnitude.
A cena, convenhamos, parece saída de uma comédia involuntária. Algo como: “Querido, hoje fui ali conversar com um banqueiro. Nada demais.” Dias depois: “Ah, fechei um contrato de R$ 130 milhões. Nem reparei que era muito.” Se isso não é ficção, então estamos diante de um fenômeno raro na sociologia conjugal brasileira.
Para sustentar essa versão, recorre-se à famosa “Chinese Wall”, a muralha da China que, segundo a narrativa oficial, separaria de forma absoluta a vida profissional da advogada da vida pública do ministro. Uma muralha tão perfeita que nem um comentário casual, nem uma conversa de fim de noite, nem um “como foi seu dia?” consegue atravessar. É uma muralha que não existe em casamento algum — mas que, curiosamente, surge sempre que conflitos de interesse batem à porta.
Agora, se aceitarmos — apenas por exercício de fé — que o ministro realmente não sabia de nada, surge outra pergunta incômoda: por que então se manifestar publicamente para esclarecer que o escritório da esposa não atuou na fusão ou na tentativa de compra do Banco Master pelo BRB? Quem não sabe de nada, não explica nada. Simples assim. A nota, em vez de dissipar dúvidas, acaba funcionando como holofote.
E há o detalhe mais espinhoso: R$ 130 milhões em honorários advocatícios, sem cláusula de êxito, sem resultado concreto atrelado, é algo absolutamente fora da curva. Escritórios renomados ganham cifras até maiores? Ganham. Mas quando há êxito bilionário envolvido. Honorário fixo desse tamanho não é comum, não é trivial, não é rotina — é exceção gritante e até duvidoso.
Diante disso, restam apenas duas hipóteses. A primeira: Alexandre de Moraes sabia de tudo. Sabia do contrato, sabia dos valores, sabia das razões que justificariam — ou tentariam justificar — essa quantia. Se assim for, seu compromisso com a esposa não pode se sobrepor, nem sequer competir, com o compromisso assumido com o Brasil ao vestir a toga do Supremo. Um ministro da mais alta Corte não pode apenas ser tecnicamente correto; precisa ser irrepreensível e vigilante na prevenção de conflitos de interesse.
A segunda hipótese: ele não sabia de nada. Foi surpreendido por um contrato atípico, estranho, fora de qualquer padrão razoável. Nesse caso, não estamos falando de ignorância, mas de engano. E aí surge outra pergunta irônica, porém inevitável: se foi enganado dessa forma, por que procurar a Receita Federal e não a vara da família? Porque, convenhamos, descobrir um contrato de R$ 130 milhões “do nada” não é apenas surpresa — é revelação.
Nenhuma das alternativas é confortável. Nenhuma delas preserva, de fato, a imagem institucional do Supremo Tribunal Federal. Pelo contrário: episódios assim expõem a Corte, fragilizam sua autoridade moral e alimentam a percepção de que há, no mínimo, uma tolerância perigosa com situações que deveriam ser evitadas a qualquer custo.
O STF já enfrenta desafios suficientes para não precisar carregar, também, o peso de narrativas improváveis. Quando ministros passam a ser personagens centrais de histórias que exigem fé cega na coincidência, algo está muito errado. E não é o cidadão que precisa explicar por que desconfia — é o poder que precisa explicar por que age assim.
No fim das contas, pedir que a sociedade engula essa história sem questionar é exigir demais. Não é ceticismo. É apenas bom senso.